segunda-feira, 18 de setembro de 2017

DEPRESSÃO E SUICÍDIO- ENTREVISTA NO PROGRAMA TODOS OS SENTIDOS

Olá, sejam muito bem vindos a mais uma postagem! Trabalho e mais trabalho. Ah, como eu gostaria de ter mais tempo para postar aqui. O programa 10 minutos de Psicologia está parado por problemas técnicos que ainda não consegui solucionar. Entretanto, segue minha entrevista para o programa Todos os Sentidos, da Rádio Universitária da Universidade Federal do Ceará, originalmente transmitido no dia 13/09/2017, que agora disponibilizo para que vocês possam ouvir na íntegra. Falamos sobre Depressão e Suicídio, esclarecendo muitas dúvidas dos ouvintes! Espero que possa ajudar a não só passar mais conhecimento para vocês como ajudar a quem precisa. 

#SetembroAmarelo #EspalheVida #EspalheAmarelo

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

SETEMBRO AMARELO 2017

Olá! Estamos em setembro e é um mês muito importante para a saúde mental. Setembro é o mês que fazemos a campanha do Setembro Amarelo, onde buscamos conscientizar a sociedade para a questão da prevenção do suicídio. Como muitos sabem, o suicídio é um problema de saúde pública cujas estatísticas vem apontando cada vez mais para um aumento das taxas em nosso país, principalmente em algumas cidades como Fortaleza. Então, nesse mês, são realizados vários eventos pelo PRAVIDA, um programa da Universidade Federal de Fortaleza do qual faço parte, com o objetivo de informar e conscientizar. Deixo abaixo o cronograma das ações que vão ser realizadas aqui em Fortaleza. 
#EspalheVida #EspalheAmarelo #PrevençãodeSuicídio




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O QUE É A BULIMIA?

Olá! Hoje vamos falar sobre Bulimia, explicando muitas coisas a respeito desse transtorno, falando sobre o diagnóstico e o tratamento.



Basicamente a Bulimia é um transtorno que se caracteriza por episódios recorrentes e incontroláveis de compulsão alimentar, seguidos de reações inadequadas para evitar o ganho de peso, tais como indução de vômitos, uso de laxativos e diuréticos, jejum prolongado e prática exaustiva de atividade física. 

Compulsão alimentar é a ingestão de uma grande quantidade de comida, por um período de tempo (menos de duas horas). A pessoa sente que não tem controle e acaba ingerindo essa grande quantidade de alimento, comendo duas a três vezes do mais do que normalmente ela comeria. O tipo de alimento ingerido pode variar, de acordo com cada indivíduo. 

As pessoas que tem Bulimia em geral sentem muita vergonha dos seus atos para perder peso (indução de vômitos, uso de laxativos, etc), e procuram esconder o que estão fazendo da família e dos amigos. Isso é um problema porque o problema acaba se estendendo muito antes que a pessoa busque ajuda. Lembro de uma paciente que eu atendi que a família só descobriu o que estava acontecendo quando encontraram sacos cheios de vômito debaixo da cama dela. 

A pessoa acaba tendo sentimentos negativos em relação aos alimentos, ao peso corporal e a forma do corpo. O aspecto essencial da Bulimia é o comportamento recorrente de utilizar meios mal adaptados para evitar o ganho de peso. Em alguns casos a pessoa vai comer sempre com o objetivo de vomitar depois e este é o comportamento compensatório inapropriado mais comum. 

Pessoas com esse transtorno tem sérios problemas de autoestima e sempre enfatizam a forma negativa como se percebem, demonstrando distorções em relação a sua autoimagem. Mesmo o paciente estando com baixo peso, ele continua a se achar feio e gordo. Então pessoas com baixa autoestima, preocupações excessivas com peso e com a o corpo, sintomas depressivos e ansiosos são fatores que podem desencadear o quadro. É bem mais frequente no sexo feminino. 

O risco de suicídio é algo preocupante em pacientes com esse transtorno. é importante que o profissional que acompanhe esse tipo de caso esteja sempre alerta para os sinais de ideação suicida que o paciente possa manifestar. Não é incomum esses pacientes apresentarem um transtorno depressivo. 


De 10 a 15% dos pacientes bulímicos revertem o quadro para anorexia, o que é algo bastante preocupante. As consequências da bulimia são variadas e graves e podem causar lesões irreversíveis ou de difícil tratamento. Alguns exemplos são: fadiga, arritmia cardíaca, irregularidade menstrual, ossos e dentes frágeis, vasos sanguíneos dilatados na pele do rosto e problemas de estômago e esôfago e na boca, em decorrência do suco gástrico que constantemente é expelido no processo de indução do vômito e da perda de nutrientes no processo.


O tratamento é feito através de uma equipe multidisciplinar, onde médicos, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas irão acompanhar o caso do paciente. São utilizados antidepressivos, principalmente por conta dos sintomas de depressão e ansiedade e para ajudar a controlar a impulsividade. A psicoterapia vai auxiliar o paciente a entender melhor o seu problema, a lidar com ele e trabalhar as questões em relação a imagem corporal, ao significado da alimentação para aquele indivíduo e questões de autoestima.

É muito importante que a pessoa que está passando por isso não guarde para si, e busque imediatamente ajuda. Tudo que tratamos precocemente acaba trazendo mais benefícios para o paciente. 


REFERÊNCIAS:

http://www.abpcomunidade.org.br/site/?p=275

https://drauziovarella.com.br/doencas-e-sintomas/bulimia-nervosa/

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. American Psychiatric Organization. 5a ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

DEBATE SOBRE O FILME "CAKE UMA RAZÃO PARA VIVER" E A PREVENÇÃO DE SUICÍDIO

Olá a todos que acompanham meu trabalho, hoje estou compartilhando com vocês a entrevista e o debate acerca do filme Cake- Uma Razão Para Viver, que aconteceu na Universidade de Fortaleza, Unifor. Falamos sobre o filme e sobre prevenção do suicídio. 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

VAMOS FALAR SOBRE 13 REASONS WHY


Demorou, eu sei. Existem muitos textos sobre isso na internet hoje, entretanto eu precisava assistir e escrever sobre isso, uma vez que trabalho com saúde mental e prevenção ao suicídio. Tomei o cuidado de não ler nada, nenhum artigo sobre essa série, para não me "contaminar" e poder escrever minhas ideias de forma mais clara e autenticas o quanto possível. Nesse artigo, minha proposta é analisar a série, contrapor com meus pensamentos e com dados de estudos científicos relacionados à saúde mental e prevenção de suicídio.

[AVISO!!! SE VOCÊ NÃO ASSISTIU E NÃO QUER RECEBER SPOILERS, ASSISTA E DEPOIS VOLTE AQUI. ESTOU AVISANDO, VAI TER SPOILERS AQUI DA SÉRIE. SE VOCÊ NÃO SE PREOCUPA COM ISSO ENTÃO PODE CONTINUAR.]

Lembro que quando começaram a falar da série 13 Reasons Why houve muito burburinho sobre aquilo estar sendo mostrado, se não poderia incentivar as pessoas. Ouvi um comentário dizendo que o suicídio era tratado de forma romantizada na série e muitas pessoas pisando em ovos com relação ao tema. Pois digo exatamente o que penso: precisamos falar sobre suicídio, sem medos e sem tabus.  Eu compreendo o medo das pessoas, mas existe muita informação sobre o tema disponível, talvez as pessoas não tenham acesso, não sei. Mas aqui terão acesso a informação científica e espero que possam aquietar essas angústias. Visitem outros artigos meus acerca do tema (clicando aqui, aqui e aqui).

13 REASONS WHY

Gostaria de falar primeiro como expectador, não como psicólogo. Eu me entreguei ao assistir a série, sozinho, concentrado, me senti em certo momento fazendo parte daquele mundo, daquela escola com aqueles alunos e seus dramas. Passei por seus dores, medos, raivas, decepções. Houve momentos em que fiquei triste, outros em que me senti bastante angustiado e outros em que vibrei de alívio. Mas também vieram momentos de dor e pesar. A série realmente é muito densa, aborda temas pesados e é capaz de mexer bastante com o sentimento das pessoas. Há uma progressão, senti que ela começa e conforme avança vai ficando cada vez mais e mais pesada em cima das problemáticas a qual retrata.



Agora vamos ao meu olhar de psicólogo. A série acompanha as experiências de uma adolescente do que seria análogo ao nosso 2o ano do ensino médio, Hannah Baker, que logo de cara você recebe descobre que ela cometeu suicídio e que os alunos estão tentando lidar com isso. Então o melhor amigo dela, Clay, recebe um pacote com fitas cassetes e descobre que Hannah gravou 13 fitas falando sobre como se sentia e de coisas que aconteceram com ela, levando a tomar sua decisão de tirar a própria vida. Clay vai ouvindo as fitas e o expectador vai descobrindo, junto com ele, tudo aquilo pelo qual Hannah passou, vai descobrindo os segredos dos seus colegas de escola e se dando conta de como tudo poderia ter sido evitado. Gostaria de ressaltar pontos chave para comentar e ficar algo mais organizado.

-BULLYING: É um dos temas centrais do seriado e é um dos grandes problemas que impulsionam as taxas de suicídios entre os jovens. Vejam essas reportagens:

  • Garoto se Suicida após sofrer bullying e colégio não tomar atitude (aqui)
  • Suicídios de meninas de 17 e 13 anos reacendem debate sobre bullying em escolas na França (aqui)
  • “Não aguento ir ao colégio”: Diego de 11 anos, suicida-se por sofrer bullying na escola (aqui)


O que é retratado na série não está longe do mundo real, pelo contrário, está bem colado. Mas o que sabemos sobre a correlação entre bullying e suicídio? Algumas pessoas (até mesmo pais), podem achar exagero um aluno cometer suicídio por sofrer bullying na escola. Vamos aos estudos.

  • Suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, resultando em aproximadamente 4.400 mortes por ano nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle de Doenças. 
  • Vítimas de Bullying tem de 2 a 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas que não sofrem bullying, de acordo com estudos da Universidade de Yale. 
  • Um estudo britânico estimou que metade dos suicídios entre jovens estão relacionados ao bullying, meninas de 10 a 14 anos tem mais chance de cometer suicídio. 

Há muitas situações em 13 Reasons Why que podem ser enquadradas como bullying. Muita gente acha que bullying é apenas quando ocorre violência física, portanto acho importante trazer uma definição do que seria bullying. 

"É qualquer forma de abuso,  psicológico, verbal ou físico, que ocorreu entre crianças de escola várias vezes ao longo de um determinado momento." 

Logo de início, Hannah se envolve com Justin, jogador de basquete da escola, popular entre as garotas, mas um rapaz que só quer saber de curtição. Ele tira uma foto por baixo da saia de Hannah e espalha através dos aplicativos de mensagem para celular em toda escola. Isso já é um passo além, pode ser considerado cyberbullying, que é o bullying através das redes sociais e de meios eletrônicos. Hannah se sente mal por virar assunto da escola, começa a imaginar o que estão falando dela, boatos sobre ela ser fácil e de contato sexual se espalham. Esse é o primeiro conflito que Hannah tem de lidar. 

Não é fácil lidar com cyberbullying tanto quanto o bullying convencional. 

  • Após ter vídeo íntimo compartilhado na internet, italiana comete suicídio (aqui)

Algo que é comum hoje em dia, gravações de vídeos íntimos, fotos íntimas que são vazadas, muitas vezes por vingança, outras vezes de forma inconsequente, podem acarretar transtornos terríveis na vida dessas pessoas. No ambiente escolar isso é bem mais impactante, porque aquele aluno(a) acaba sendo visado, seu rendimento escolar cai, faltas são comuns, muitas vezes o aluno  não suporta a pressão e muda de escola ou pode simplesmente abandonar os estudos. 

-ESTUPRO/ ABUSO SEXUAL: é bem sabido que este é um dos fatores de risco para suicídio.
Vítimas de abuso ou estupro possuem mais chances de vir a cometer suicídio do que não vítimas. Temos duas situações na série que são bem fortes, ambas envolvendo estupro. A primeira é a Jessica que, bêbada numa festa, é estuprada por Bryce "amigo" de Justin, enquanto Hannah presencia tudo escondida no quarto. Aquela cena é chocante para ela, traumático ver a pessoa que considerou amiga estando indefesa e sendo estuprada. Outro momento é quando Bryce estupra Hannah na banheira, não dando chance dela se desvencilhar. Ela não consegue reagir contra ele e temos aí outro trauma, decisivo para sua decisão final.

"Os adultos que foram vítimas de abuso físico durante a infância relataram índices mais elevados de ideação suicida e relataram ter realizado mais tentativas de suicídio ao longo da vida. Encontramos resultados semelhantes no que se refere às experiências de negligência e ao ambiente familiar disfuncional" (SILVA, Suzana, MAIA, Angela, 2010)

Não é fácil para uma vítima de abuso contar para a família ou denunciar o agressor. Daí a importância do diálogo (que discuto mais abaixo), de haver um canal aberto na família para que caso algo assim ocorra, não seja mascarado e fique oculto durante anos. Já perdi a conta de quantos pacientes atendi na clínica que sofreram abuso na infância, em vários níveis, e nunca contaram para a família, consequentemente nunca houve punição para o agressor, que provavelmente continuou os abusos com outras pessoas.  

-DIÁLOGO: Na série você não vê diálogo ente pais e filhos. Os filhos não conversam com seus pais para dizer o que estão passando, quais problemas estão enfrentando. Pois isso, quando os pais de Hannah a encontraram morta eles não entendia o que havia motivado o ato e passam o seriado inteiro em busca de respostas que os ajude a entender.  Clay passa toda a estória escondendo tudo de seus pais, e em determinado momento quando sua mãe não aguenta mais tantos segredos ele cede e diz que logo vai revelar tudo a ela. Mas a série termina e a mãe de Clay ouve sobre as fitas e sobre o envolvimento de Clay com elas por outra pessoa. Hannah não conta para os pais as coisas que tem passado, os problemas e conflitos que se desenrolam na escola porque sempre que ela tenta se aproximar de alguém acaba dando errado. 

O que gostaria de deixar claro é, o quão importante esse diálogo é e como isso pode ajudar a identificar sinais não só de bullying, mas de depressão e de ideação suicida. Somente ao fim da série, alguns dos alunos que passaram por experiências ruins, como a Jessica que é estuprada, contam o que de fato aconteceu para seus pais. Diálogo é uma forma dos pais acompanharem a vida social e escolar do filho, de poder abrir um canal de comunicação para tratar de assuntos difíceis, fornecer suporte emocional e mostrar o amor que tem.  

-CONSELHEIRO ESCOLAR: Durante toda série eu fiquei observando como aquele conselheiro era de alguma forma estranha, mal preparado para lidar com os alunos, visto que ele não consegue estabelecer um vínculo positivo com ninguém. Todos que vão a sua sala tem a necessidade de falar, e desistem. Conselheiro escolar não é o mesmo que psicólogo escolar, que fique bem claro, ali é uma particularidade das escolas americanas. Todavia, é um profissional que deve estar capacitado para ouvir e orientar os jovens. Apenas no fim o expectador fica sabendo que Hannah o procurou, como última tentativa, um pedido de ajuda, e ele não conseguiu captar a mensagem que ela tentava passar, novamente demonstrando essa dificuldade de criar um rapport com os estudantes. 

Nem sempre as pessoas estão dispostas a falarem sobre seus medos ou sobre coisas dolorosas assim. É muito comum na clínica paciente que só depois de um tempo, quando estão mais acostumados começarem a se abrir e falar dos seus problemas. Mesmo ouvindo o relato de Hannah ele não atentou para o pedido de socorro dela, que estava implícito naquela mensagem. Sim, profissionais não tem bola de cristal, como alguém aí deve estar pensando, mas quem trabalha nesse tipo de posição tem que ter empatia, sensibilidade para perceber essas nuanças. Além disso, é preciso capacitar os profissionais das escolas para perceberem os sinais de ideação suicida. Nem todas as escolas brasileiras possuem psicólogos, e muitas escolas grandes e particulares em geral focam os esforços do psicólogo em outras áreas que não a prevenção de suicídio (tenho amigos que foram psicólogos escolares). Ainda é um tabu grande trabalhar a prevenção de suicídio nas escolas (principalmente nas privadas), mas somente prevenindo podemos evitar tragédias. Todo corpo escolar deve ser capacitado para reconhecer sinais que possam indicar sofrimento psíquico e emocional intensos, de modo a poder se aproximar do aluno e estabelecer uma via de diálogo, dar suporte e avisar os pais e encaminhar para acompanhamentos mais especializados quando for o caso.

-AUTOMUTILAÇÃO: automutilação é um comportamento recorrente em algumas tentativas de suicídio, sintoma de alguns transtornos (vide meu artigo sobre Transtorno de Personalidade Borderline clicando aqui) e até mesmo um diagnóstico de autolesão não suicida. A automutilação pode ser definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio, apesar da nomenclatura, pode envolver queimaduras, fincar objetos na pele, etc. É mostrado, de forma breve, uma personagem com cortes no braços: Skye. Em dois breves takes, Clay percebe que o braço dela está cheio de riscos, cicatrizes de cortes, e a confronta no que ela responde "É o que você faz ao invés de se matar". Comportamento autolesivo não é incomum de ser precedido de ideação suicida, indica um grau de sofrimento psíquico e deve ser cuidado.


-SUICÍDIO: Desde o primeiro episódio de 13 Reasons Why é perceptível o quanto é difícil para os alunos aceitarem e lidarem com o suicídio de Hannah. A maioria prefere evitar o assunto e o expectador sente um clima pesado no ambiente escolar. Todos estão tentando retomar o cotidiano, mas o fantasma do suicídio assombra a escola. Alguns alunos tentam lidar com isso espalhando cartazes, mensagens positivas no armário de Hannah, a escola inclusive inicia um processo de orientar os pais sobre possíveis sinais (mas se não estou enganado isso vem apenas depois que os pais de Hannah entram com um processo contra a escola).

Suicídio é um tabu, é inegável. Não sabemos nem ao menos lidar direito com as mortes cotidianas (sejam de causas naturais ou não), logo enfrentar uma morte auto-infligida é um patamar muito mais difícil para nossa sociedade. Na série, os estudantes que tinham contato com Hannah não admitem (exceto Alex) que tiveram influência em algum ponto para motivar Hannah ao suicídio. Alex é um dos que mais se culpa, a ponto de no último capítulo tenta se matar com arma de fogo.

Gosto sempre de lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo e multideterminado, logo não existe um motivo único para uma pessoa pensar ou cometer suicídio, mas um somatório de fatores, entre riscos e proteção. Se os fatores de risco superam os de proteção então as chances aumentam vertiginosamente. Bullying, decepções, solidão, isolamento, abuso sexual, possível transtorno mental, todos são fatores de risco.

Não fica claro em 13 Reasons Why, até porque é uma obra de ficção e limitada, mas geralmente existe um transtorno mental por trás das tentativas de suicídio. Muitas vezes um transtorno mental que não foi diagnosticado porque a pessoa nunca foi avaliada por um especialista.

Associados ao bullying geralmente temos a depressão, embora isso não fique claro em Hannah, que parece uma adolescente como qualquer outra. Mas o seriado evidencia a constante busca de Hannah por atenção, por relações sociais, algo que lhe e negado quase o tempo todo, gerando um suposto isolamento social (suposto porque isso não é mostrado de forma clara). Alguns transtornos de personalidade são caracterizados por essa busca constante por atenção. Hannah tinha um transtorno de personalidade não diagnosticado? Talvez, é apenas especulação minha, mas acho possível. Apesar de sua proximidade com Clay, parece que para ela aquela amizade não contava, uma vez que estava sempre em busca da amizade de outros, mesmo Clay estando sempre ali para ela. Mais uma característica dos transtornos de personalidade.

Supondo que houvesse um programa de prevenção de suicídio na escola, um canal de comunicação com a família, suporte de amigos, Hannah não teria cometido suicídio. Faltaram fatores protetivos. Mesmo quando ela buscou ajuda, o conselheiro falhou em chegar até ela e interpretar o que ela estava dizendo. Isso vale para a vida real. Devemos estar atentos a esses comentários de que a "vida não presta", "o mundo estaria melhor sem mim", "não sirvo para nada", "seria melhor desaparecer". Comentários assim são pedidos de socorro. Mas vamos aos sinais. 

-SINAIS: Você que assistiu 13 Reasons Why deve ter se perguntando "Quais os sinais de uma pessoa que está pensando em cometer suicídio?". É difícil às vezes ver algo quando não se está procurando ou quando não se sabe o que se está procurando. Os sinais podem ser bem sutis em 13 Reasons Why eles são. O primeiro grande sinal é o poema de Hannah, que Ryan publica sem ela saber e que a deixa mal por saber que seus pensamentos agora são de domínio público. O poema de Hannah é forte e recheado de metáforas sobre sofrimento e o desejo de morrer. Hannah fica muito transtornada ao ver que, mesmo anonimamente, todos começam a comentar seu poema. A mesma coisa acontece com um sujeito com ideações suicidas. Imaginar que as pessoas sabem de suas intenções de tirar a própria vida pode deixá-lo numa situação constrangedora, daí muitas vezes o fato de não falar abertamente sobre isso, de não comunicar diretamente suas intenções. O que nós vamos procurar são sinais indiretos.



Temos que estar atentos a mudanças de comportamento (de repente a pessoa começa a agir diferente do habitual), isolamento, tristeza, explosões de raiva, comportamento auto-lesivo (se cortar, por exemplo), pensamentos mórbidos. identificando essas alterações, podemos conversar com a pessoa e fazer as seguintes perguntas que vão determinar a ideação suicida:



1) Você tem planos para o Futuro? A resposta do paciente com risco de suicídio é não
2) A vida vale a pena ser vivida? A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não
3) Se a morte viesse ela seria bem vinda? Desta vez a resposta será sim par aqueles que querem morrer
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4) Você está pensando em se machucar/se ferir/ fazer mal a você/ em morrer?
5) Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6) Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

Na vida real é mais fácil de perceber esses sinais do que no seriado, visto que a obra de ficção mostra em detalhes o sofrimento de Hannah, mas não os sinais que normalmente os pacientes com ideação suicida dão. A série mostra o suicídio como uma escolha, e aqui eu gostaria de deixar claro meu posicionamento enquanto psicólogo e profissional da saúde. O suicídio é uma opção quando não há apoio. Nunca conheci alguém que quisesse morrer porque sua vida está indo bem, o comportamento suicida é motivado por um sofrimento psíquico intenso e quando não há alternativa para esse sofrimento o indivíduo busca a morte, como forma de alívio. Daí se houver amparo, tratamento e cuidado familiar, a tendência é a ideação ceder e o paciente melhorar. Não é um caminho fácil, mas é um caminho possível e alternativo a morte.

-SOBREVIVENTES: Nós chamamos de sobreviventes aqueles que vivenciam a perda de alguém para o suicídio- família, amigos, escola, trabalho. Essas pessoas vivenciam o luto de uma forma complexa, quanto mais próximo daquele indivíduo que se suicidou mais difícil é o processo de luto, podendo levar a problemas psicológicos graves. Em geral as pessoas não buscam suporte para lidar com esse tipo de perda, o que é uma questão importante, visto que existem diversos sentimentos associados a morte daquele ente querido.

Há uma tendência das pessoas em buscar culpados, isso é bem mostrado em 13 Reasons Why quando os pais de Hannah estão tentando a todo custo entender o suicídio de Hannah, assim como Clay também procura culpados e se culpa em vários momentos. É isso mesmo que acontece, sentimentos de raiva, tristeza, em certos momentos há culpa vai para outros, ora para si mesmo. Essa confusão de sentimentos, quando não trabalhada numa sessão de terapia de apoio, por exemplo, pode evoluir para depressão e outros transtornos. Em determinado momento pode levar a uma culpabilização insuportável que culmina com uma nova tentativa de suicídio. Por esse motivo Alex tenta se matar no último capítulo. Enquanto os outros alunos estão fugindo da responsabilidade, evitando o assunto, Alex sempre assumiu que suas ações influenciaram Hannah e essa culpa vai ficando cada vez mais pesada até ser insustentável, o que o leva e tentar suicídio por uso de arma de fogo.


CONCLUSÕES

"O Brasil é o quarto país latino-americano em número de suicídio entre 2000 e 2012, segundo a Organização Mundial da Saúde, porém, o Ministério da Saúde traz que o crescimento do número de suicídios no Brasil (5,8 por 100 mil habitantes) é praticamente a metade da média mundial (11,4 por 100 mil habitantes) (WHO, 2014)."

Bom, sei que o texto ficou bem grande, mas eu queria fazer uma reflexão sobre o que achei pertinente em 13 Reasons Why, ressaltando o que é mostrado com o lado científico, para informar vocês da importância da prevenção. Não podemos nos calar frente ao suicídio, precisamos falar, precisamos abrir canais em que as pessoas que precisam de ajuda possam se agarrar nos momentos difíceis de suas vidas.

A série não romantiza ou incentiva o suicídio, no meu ponto de vista. Fica claro o sofrimento e a dor de Hannah o tempo todo e como a adolescente não consegue encontrar mecanismos para lidar com isso, além de que a falta de diálogo e sensibilidade de algumas pessoas a faz sentir cada vez mais sozinha até ela tomar sua decisão. Não foram decepções amorosas, a falta de amigos ou bullying, que levaram Hannah a cometer suicídio, mas o somatório dessas experiências traumáticas, assim como a sensação de falta de suporte emocional, aliado a uma personalidade pré-morbida (a pessoa portadora de traços melancólicos e sensibilidade excessiva terá maior probabilidade de desenvolver uma quadro depressivo mais crônico e mais atrelado à personalidade, portanto, terá uma evolução mais desfavorável).

Vejo o seriado como um alerta, do que ocorre hoje em nossa sociedade, não apenas nas escolas, mas o Brasil tem tido um aumento nas taxas de suicídio ano após ano, enquanto outros países tem conseguido reduzir esses números. É um seriado que precisa ser visto e debatido, pois como sempre digo, é imprescindível falarmos sobre suicídio, mas fora do senso comum, entendo esse fenômeno como um problema de saúde pública, não como uma fraqueza ou uma escolha pessoal.


REFERÊNCIAS: 

1-http://www.bullyingstatistics.org/content/bullying-and-suicide.html
2-https://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/bullying-suicide-translation-final-a.pdf
3-http://www.scielo.br/pdf/rprs/v32n3/1321.pdf
4-http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1647-21602016000100003
5-http://revpsi.org/wp-content/uploads/2015/12/Fukumitsu-et-al.-2015-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio.pdf
6-http://www.mastereditora.com.br/periodico/20150501_135302.pdf
7-http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=58
8-http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpsp/v31n2/v31n2a09.pdf
9-http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf
10-BOTEGA, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

FIM DO RELACIONAMENTO: E AGORA?

Relacionamento afetivo é uma busca constante de muitas pessoas, mas o medo do fim e a possibilidade de "abandono" gera inúmeros fantasmas. Vamos falar um pouco sobre o término dos relacionamentos e como as pessoas lidam com esses sentimentos.

O ser humano é essencialmente social, apenas algumas exceções bem pontuais que mostram pessoas que se isolaram completamente do mundo (muito provavelmente por alguma patologia). É pelo contato social que aprendemos a falar, nos comunicar, absorvemos as regras morais, sociais, culturais. Precisamos, em muitas ocasiões, da confirmação do outro para sabermos se estamos bem vestidos, se aquela decisão foi bem tomada, ou apenas para compartilhar uma alegria, uma tristeza. E buscamos relacionamentos afim de satisfazer uma necessidade maior, não apenas de constituir família, mas de companhia mesmo. 

Entretanto, por uma série de eventos, o relacionamento tão almejado pode chegar ao fim. Acredito que esse seja um dos grandes dilemas do homem hoje, aceitar o fim das coisas. parece que há um desejo fortíssimo para que as coisas tenham duração ilimitada. Esquecem que tudo na natureza tem um ciclo, as coisas se findam em algum momento, se renovam de alguma forma. Mas para as pessoas (ou pelo menos a maioria delas) parece inaceitável que um relacionamento acabe. Parece que todo aquele investimento afetivo foi em vão, emergem inúmeros questionamentos e um sentimento de frustração se faz presente e forte, tudo isso porque aquela pessoa não está mais com você. 

É nesse momento que muitas psicopatologias podem surgir. Aceitar o fim do namoro, noivado, casamento, união estável, é aceitar que algo deu errado, que não funcionou, que você está "sozinho" novamente e terá que passar por todo o processo de buscar alguém. Para alguns isso é inaceitável. Pode acontecer uma fixação com a pessoa que foi embora, fixação de pensar nela constantemente, de não aceitar de forma alguma que aquele relacionamento terminou e isso é perigoso, pois pode levar a uma obsessão. O sujeito não consegue mais trabalhar/ estudar direito, seus pensamentos estão sempre voltados para a pessoa, isso prejudica inclusive seu contato social com os outros. Pensar que a outra pessoa não está com você e pode estar com outro gera sentimentos violentos de raiva e frustração. Quanto chega nesse ponto, muitas vezes ocorrem os chamados crimes passionais. Por não saber lidar com o término do relacionamento, aquela pessoa acaba eliminando a fonte do seu amor que ao mesmo tempo é sua dor/sofrimento. Gostaria de ressaltar que não é o fim do relacionamento que causa esse tipo de comportamento, pois provavelmente a pessoa já tinha uma estrutura patológica. Para entender melhor, leiam meus artigos sobre ciúme patológico (clicando aqui) e codependência afetiva (clicando aqui).

MAS ENTÃO COMO AGIR DIANTE DESSE SOFRIMENTO? O QUE FAZER AO TÉRMINO DO RELACIONAMENTO?


Primeiro é importante pensar sobre isso de forma mais imparcial possível. Comece a analisar a sequencia de eventos que levou a isso. Nenhum relacionamento termina da noite para o dia, sempre há motivos e situações que impulsionam para isso. Analise qual o seu papel nessas situações, como você poderia ter feito diferente e se suas ações tiveram um peso maior ou menor. 

Aprenda a reconhecer seus erros, suas falhas, seja consciente das suas ações. As pessoas tem uma grande tendência a sempre culpar o outro por tudo, sem olhar para si mesmo e reconhecer que também tem responsabilidade pelo que ocorre numa relação. Entendendo melhor seus comportamentos durante a relação e reconhecendo onde errou você poderá evitar isso no futuro.

Não se torne um perseguidor. Isso é ruim para você (a pessoas vão saber e começar a ter medo e reprovar suas ações), e para a pessoa que vai tentar se proteger, muitas vezes acionando até a polícia. Respeite o espaço do outro. Ligações excessivas, ficar procurando a pessoa, seguindo ela, stalkeando nas redes sociais, tudo isso é sinal de patologia. Ninguém é propriedade de ninguém, ninguém é obrigado a te amar, a ficar com você. Amor é algo natural, quando é algo forçado e que impede a liberdade e o bem estar do outro aí já é doença.

Evite condutas autodestrutivas. Sei que é difícil porque somos bombardeados com esses comportamentos pela nossa cultura. Quando termina o relacionamento a pessoa vai pro bar, se enche de álcool, usa drogas, passa a dirigir perigosamente. Tudo isso é comportamento de risco e uma forma de causar dano a si mesmo. Uma hipótese minha é que isso é uma forma, inconsciente, da pessoa chamar a atenção do antigo parceiro(a), "olha como eu to mal, isso é culpa sua, por sua causa estou assim". 

Se a pessoa que se relacionava com você permitir uma aproximação e uma possível reconciliação, tudo bem, mas evite forçar isso ou você vai estar criando ainda mais conflitos. 

Busque amigos, parentes para conversar, desabafar, não sofra sozinho. Sofra, elabore o término, não finja que nada aconteceu. 



quarta-feira, 24 de maio de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #7- O QUE É PSICOTERAPIA

Olá a todos, sei que estive ausente, mas devido ao trabalho e situações pessoais nem sempre consigo manter uma frequência desses projetos. Contudo, antes tarde do que nunca! No programa de hoje eu tento explicar um pouco a complexidade do que é a Psicoterapia. Eu sei, eu sei, faltou falar sobre muita coisa, afinal é um tema grande para ser tratado em 10 minutos. Por isso podem sugerir nos comentários quais assuntos vocês gostariam que eu abordasse futuramente. Até!


CLIQUE NO PLAYER LARANJA PARA OUVIR OU BAIXE PARA OUVIR A QUALQUER HORA!