quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alucinações e Loucura


Alguma vez na vida você já deve ter se perguntado, mesmo que por brincadeira, "Estou ficando louco?", frente a alguma situação em que você reagiu de forma totalmente diferente do que você agiria ou em face de alguma experiência quase "sobrenatural" que tenha passado pelos seus sentidos. No artigo de hoje vamos...


O que é alucinação?

Primeiro, não me refiro aquela música do Belchior. Segundo para o dicionário da língua portuguesa, alucinação é: 

s.f. Sensação mórbida produzida por algo inexistente.
Devaneio, delírio, ilusão.
Obscurecimento passageiro das faculdades mentais.

Essa é a definição do dicionário, mas delírio e ilusão são outros sintomas psiquiátricos, então vamos a definição de alucinação para a saúde mental. Alucinação, segundo a definição do Dr. Cleto Ponte é uma percepção sensorial falsa não associada a estímulos sensoriais externos, o qual é aceita pelo paciente como verídica. É a percepção real de algo inexistente sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando. 

Mas aí a grande questão que a maioria das pessoas imagina é: se estou alucinando, estarei louco? Estou perdendo a razão, a sanidade? A resposta é: depende. Vamos entender porque.

TIPOS DE ALUCINAÇÃO

Existem alucinações para cada um dos sentidos. 
Alucinações visuais: são as mais comuns, onde o indivíduo vê pessoas, seres, objetos, paisagens, qualquer coisa relacionada com a visão por mais absurda. Já tive pacientes que viam demônios saindo das pessoas, por exemplo.

Alucinações auditivas: também são bastante comuns, a pessoa ouve sons, vozes ou barulhos que não estão no ambiente. Geralmente essas vozes dão comandos ou reforçam uma ideia negativa que a pessoa tem de si ("Você é um fracassado", "Você vai morrer", "Ninguém gosta de você", por exemplo). Tive um paciente que disse que a Virgem Maria lhe disse que o mundo iria acabar e só restaria a cidade onde ele mora.

Alucinações gustativas: incomuns, mas curiosas. O sujeito tem a absoluta certeza de gostos e sabores em sua boca que não estão lá. Gosto de sangue, fezes e outras coisas. Já atendi uma paciente que relatava um gosto de pimenta na boca.

Alucinações táteis: a pessoa tem plena convicção de que há algo no seu corpo ou algo errado com o seu corpo. Há relato de pacientes que sentem formigas ou outro tipo de inseto em seu corpo.

Alucinações olfativas: também são incomuns, o paciente sente odores que não estão no ambiente, geralmente esses odores o acompanham o tempo todo, causando um incômodo constante.


Então, se eu tive algum tipo de alucinação desses, estou ficando doido? Vão me internar num Hospital Psiquiátrico? Claro. Que não. Existem alguns estados que podem ocasionar alucinações em uma pessoa mentalmente saudável.


ALUCINOSE ORGÂNICA

Neste tipo, o sujeito é acometido por alguma moléstia orgânica que o faz alucinar, não tendo a ver com transtorno psiquiátrico. Um exemplo clássico disso é a alucinose por abuso de álcool, uma vez que pessoa com histórico de alcoolismo pode alucinar devido a intoxicação pelo álcool ou pela sua abstinência. A utilização de drogas (lícitas ou ilícitas) pode provocar alucinação. Usar algumas categorias de medicamento e ingerir bebidas alcoólicas pode provocar alucinação. Problemas nos rins, quando os rins estão falhando e o nível de impurezas no sangue aumenta pode também provocar estados alucinatórios, revertendo o quadro quando a patologia é sanada. Drogas como LSD, Crack causam alucinação, abuso de cocaína e outras drogas também. Problemas metabólicos (uremias e diabetes) podem causar alucinação. Traumas (pancadas) na cabeça ou tumores cerebrais podem causar alucinação. Como vimos, em todos os casos citados o problema é essencialmente orgânico ligado a um fator externo que pode ser revertido dependendo da gravidade do problema, fazendo com que a pessoa pare de alucinar.


É possível alucinar sem que seja qualquer uma das situações acima e que não seja um transtorno mental? A resposta é sim! Privação de sono, estados intensos de estresse podem provocar alucinações passageiras. Quando se está caindo no sono e quando se está acordando é possível alucinar, e vou logo avisando que é um processo involuntário. Imagine que você está sonhando com um bombardeio, bombas caindo e explodindo tudo. Você acorda assustado, e mesmo acordado você ouve o barulho das explosões dos aviões por alguns minutos e depois tudo silencia. O nome disso é alucinação hipnopômpica, porque ocorre ao acordar. Agora se você está deitado na sua cama e está quase adormecendo, você sabe que está só no seu quarto e sente a cama afundando como se alguém deitasse com você e depois você dorme. Isto é uma alucinação hipnagógica, porque ocorre ao adormecer. Nenhuma é indicativo de algum problema, todo mundo passa por várias dessas durante a vida. 


Mas então como saber se uma pessoa que está alucinando precisa de tratamento? Alucinação é só um sintoma, o que caracteriza qualquer transtorno são uma série de sintomas, desta forma, depende não só da alucinação, mas do tipo de pensamento e comportamento que o sujeito está manifestando. O ideal é procurar um Psicólogo para que ele possa avaliar. 


OBS: Esse é um site para leigos, então procuro ser o mais claro e simples, evitando jargões complexos e excesso de teoria clínica. Se tiverem alguma duvida, podem perguntar nos comentários ou mandem um e-mail. 


Para saber mais: http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=103

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #6: A Ilha do Medo

Que tal um filme de suspense? Mesmo sendo uma ficção, o roteiro é muito bem escrito, envolvendo de mistério uma Ilha utilizada como local para tratamento de doentes mentais. O hospital psiquiátrico é isolado de tudo e todos e lá se desenvolve uma trama psicológica densa que vai deixar o expectador curioso e confuso até o ultimo instante. Um filme de fato muito bom.




A ILHA DO MEDO

Título Original: Shutter Island
Ano: 2010
Atores principais: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Drama, Thriller

Sinopse: 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e anti-éticos. Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto. Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa.


Veja o trailer do filme:

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Comendo Coisas Estranhas


E se você sentisse vontade de comer areia? Que tal cola? Ou ainda um desejo irresistível de comer plástico ou fezes humanas? Sentir desejo algum desses desejos e realizá-los é um transtorno bem incomum, chamado PICA ou alotriofagia, que é o consumo de substâncias inorgânicas (na esmagadora maioria dos casos) ou algumas substâncias orgânicas cruas. 

Você deve estar se perguntando como isso acontece ou o que leva alguém a exercer esse comportamento. Primeiramente, antes de diagnosticar alguém com PICA devemos atentar para a fase do desenvolvimento no qual aquele individuo se encontra. Não é incomum ver crianças pequenas pegando o que veem pela frente e colocando na boca (embora nem sempre haja deglutição). Fatores culturais também entram na identificação de diagnósticos, embora eu não saiba citar aqui que tipo de cultura específica pratica determinada fagia. 

Exemplos de algumas:

Acufagia - ingerir objetos pontiagudos
Amilofagia - comer amido (i.e. de milho ou mandioca)
Auto-canibalismo - comer partes do corpo (raridade)
Cautopireiofagia - ingerir palitos de fósforo apagados
Coniofagia - comer pó
Coprofagia - comer excremento
Emetofagia - comer vômito
Geomelofagia - comer (freqüentemente) batatas cruas
Geofagia - ingerir terra ou solo
Ctonofagia - ingerir terra ou argila (arcaísmo)
Hematofagia - comer sangue
Hialofagia -ingerir vidro
Lithofagia - comer pedras
Mucofagia - ingerir muco
Pagofagia - comer (patologicamente) gelo
Trichofagia - comer cabelo ou lã (fios ou tecido)
Urofagia - ingerir urina
Xilofagia - comer madeira


Geralmente o indivíduo percebe esse ato como estranho, socialmente reprovável, há culpa e sofrimento envolvido. Em alguns casos isso não ocorre, para o indivíduo é normal comer fezes ou cabelo, por exemplo, sem se incomodar com o que os outros vão pensar daquele ato. É certo que é importante investigar um possível retardo mental nos casos de PICA. Sendo descartado o retardo, vamos para outro critério diagnóstico que é o tempo em que a pessoa vem praticando o ato de comer algo inorgânico. Quanto mais tempo, mais certo é o diagnóstico e mais breve essa pessoa deve procurar um Psiquiatra e um Psicólogo para realizar o tratamento, uma vez que dependendo do que ela ingere pode causar diversas complicações. 

A ingestão de cabelos, tricotilofagia, resulta muitas vezes em cirurgia, uma vez que o estômago não digere a queratina presente nos fios de cabelo, ficando uma bola de cabelo no estômago do paciente que só pode ser retirada cirurgicamente (lembrando que tricotilogafia é um transtorno do espectro obcessivo compulsivo). A pessoa que pratica geofagia, ato de ingerir areia, barro, está sujeita a contaminação por vírus, bactérias e parasitas (verminoses, disenterias, cólera, por exemplo e até mesmo tétano). Comer fezes e beber urina fazem parte de alguns fetiches bizarrros, mas estão inclusos aí também, pois como foi relatado o comportamento pode estar trazendo um desconforto imenso para a pessoa que sente culpa em realizar aquele desejo bizarro. 

Então dependendo do que é ingerido a pessoa terá complicações diferentes. Resolvi escrever sobre esse tema, pois recentemente atendi uma gestante que há um mês estava se alimentando das paredes de casa. Ela relatou que almoçava normalmente a comida que havia cozinhado e após terminar ingeria partes da parede de sua casa sem adição de água.

Para finalizar, não expliquei a origem do termo desse transtorno, que leva as pessoas a fazerem piadinhas, principalmente nas aulas de Psicologia. PICA vem do latim pega, que é um pássaro do hemisfério do norte que come tudo que vê pela frente.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

VÍDEO GAMES E VIOLÊNCIA: A FALÁCIA DA MÍDIA


Não é de hoje que casos chocantes de homicídio, suicídio ou assassinato em massa  que chamam a atenção da mídia tem como pano de fundo os vídeo games como vilões, como incentivadores de um comportamento agressivo e caótico nos jovens, dessa forma reacendendo a discussão a respeito da legalidade dos jogos, da classificação etária dos mesmos e de sua influência no comportamento. Meu objetivo nesse artigo é explicar um pouco de como os games influenciam as pessoas e como a violência entra nessa equação.

Primeiramente devemos ter em mente que cada faixa etária tem suas particularidades: enquanto crianças estão formando aspectos centrais da personalidade, adolescentes estão buscando autoafirmar a sua identidade e jovens adultos estão lidando com a passagem da adolescência para a vida adulta. A transição de cada uma dessas fases traz perdas e angústia que são vivenciadas por esses sujeitos em maior e menor grau. Assim, a criança que agora é adolescente tem que dar respostas novas, atendendo a expectativa dos pais, assim como o adolescente que passa para a vida adulta é bombardeado com uma série de responsabilidades novas como faculdade, trabalho, etc. Mas o que isso tem a ver com violência e vídeo games?

Ocorre que nessas fases do desenvolvimento a forma como esse sujeito se relaciona com os pais, com a família e com o mundo vai criar várias possibilidades para ele; é uma série de variáveis que vão afetar seu comportamento, de acordo com sua percepção, de como entende e percebe o mundo. Significa dizer que filhos de pais amorosos tem uma tendência a serem amorosos, serem boas pessoas, mas não é regra, uma vez que o excesso desse amor pode criar permissividades. Assim como filhos de pais negligentes, violentos, ausentes, terão uma tendência a desenvolver esses comportamentos, mas isso não é uma certeza absoluta, vai depender de como esse indivíduo encara essas experiências. Comportamento humano não é determinado, é mutável, são probabilidades, maiores ou menores de que algo se manifeste.

Esse preâmbulo sobre o desenvolvimento humano serve para nos mostrar que, além dos estímulos que nos permeiam, as relações com nossos pais e com nós mesmos também terão um peso em como nos comportaremos no mundo. Serão neuróticos saudáveis.

Vídeo games, filmes, livros, novelas e músicas são formas de expressão, entretenimento e manifestações culturais e artísticas que sempre tem algum tipo de violência, desde a mais explícita a mais velada. Uma música que denigre a imagem da mulher é uma violência simbólica, um livro que fala sobre crimes e mortes é uma violência mais aberta, filmes retratam uma violência muitas vezes crua e jogos eletrônicos simulam diversas situações com ou sem exageros. Todos manifestam alguma violência.

A grande pergunta é: E porque as pessoas não saem todos os dias se matando? Porque pessoas que adoram filmes de terror com desmembramentos e sanguinolência não saem por aí repetindo o que veem (tenho vários amigos que apreciam esse tipo de filme e são tão violentos quanto um bicho preguiça)? Porque não temos milhares de crianças assassinas por aí, já que jogam jogos eletrônicos brutais?

E a resposta é: simplesmente porque entendem que isto é errado, está internalizado em suas psiquês que matar é errado e que sentir desejo por isso é doentio. Essas pessoas sabem diferenciar o que é real do que é fantasia. Filme, jogo de vídeo game, novela, é tudo fantasia. Quando o sujeito passa a ver isso como real ou como possibilidade aí há um problema.  Eu sempre utilizo o exemplo da faca de cozinha, aquela do tipo serrinha de pão. Ela serve pra cortar o pão, passar manteiga ou geléia ou requeijão. Serve pra cortar um bife, uma fruta. Mas pode ser usada para matar. Ela foi criada pela empresa de facas para matar pessoas? Óbvio que não, assim como outros objetos que tem suas funções definidas, mas um ser humano com problemas em sua estrutura da personalidade pode deturpar seu uso/significado e utilizar para matar ou infligir dor ao outro.

Vídeo games, por mais violentos que sejam, são entretenimento, são um passatempo, assim como filmes, novelas, etc. Qualquer ser humano com algum problema psicológico ou algum distúrbio de personalidade latente pode se utilizar dos vídeo games, filmes, músicas para alimentar seus delírios e cometer crimes. O problema é que a mídia sensacionalista sempre procura culpados, sempre quer chamar a atenção culpabilizando alguma forma de entretenimento que aquela pessoa tinha antes de cometer um crime brutal, esquecendo de que antes de jogar o joguinho violento ela pode ter tido relações conflituosas com sua família, algum problema psicológico não diagnosticado. A mídia não tem compromisso com a verdade e sim com chamar a atenção e vender.  A mídia não reflete, apenas joga na sua cara e se você não se limpar e mastigar as idéias vai continuar aceitando muita baboseira que é mostrada como algo real.


Então, senhores pais, tenham mais atenção apenas com o tipo de jogo que seu filho está jogando, ou filme que está assistindo, pois esses produtos vem com classificação etária. Além disso, vamos impor mais limites a essas crianças e adolescentes, pois deixar um jovem jogando games por cinco, seis horas seguidas é um exagero. O problema está nesse exagero e na falta de limites. Pais, não é o jogo violento que vai tornar seu filho um assassino ou uma pessoa cruel, mas sim a forma como você cuida dele, a forma como você se interessa pela vida e pelos problemas pela, a forma como você lida com os erros que ele comete, a forma como você se responsabiliza por ele. É tão mais fácil culpar itens externos, do que se responsabilizar pela maternidade/paternidade. Frisando que mesmo com tudo isso, transtornos psicológicos latentes (que estão lá, mas não se desenvolveram), também podem influenciar esse comportamento violento, sendo os games, filmes e música apenas pano de fundo para justificar um desejo já existente de cometer algo socialmente condenável.

(Violência é causada por vídeo games? Por favor, 
me informe qual jogo as pessoas estão jogando 
por 5000 anos)


ATUALIZAÇÃO!

Recentemente li um artigo interessante que mostra como o vídeo game pode auxiliar no tratamento no déficit de atenção de hiperatividade (TDAH, citado nesse artigo do blog), segue o link do artigo:


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #5: Bicho de Sete Cabeças

Minha recomendação de hoje é um filme brasileiro icônico que ganhou bastante visibilidade por abordar um tema polêmico na época de seu lançamento: a questão da loucura e dos hospitais mentais. O filme chocou muita gente, por mostrar uma visão muito próxima (senão idêntica) da realidade do que acontecia nos hospitais mentais (hospitais psiquiátricos ou asilos), justamente na época em que ocorriam várias mudanças na saúde mental de nossa país. O filme pode ser chocante sim, mas não só nos mostra a loucura, como a sanidade contida na loucura, além de ser uma espécie de retrato histórico de um passado recente do Brasil.

BICHO DE SETE CABEÇAS

Título Original: Bicho de Sete Cabeças
Ano: 2000
Atores principais: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss
Direção: Laís Bodanzky
Gênero: Drama

Sinopse: Seu Wilson (Othon Bastos) e seu filho Neto (Rodrigo Santoro) possuem um relacionamento difícil, com um vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite e Neto é enviado para um manicômio, onde terá que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas.



Esse filme foi a produção que deu uma alavancada na carreira do ator Rodrigo Santoro, ele está simplesmente sensacional nesse papel. Abaixo segue o trailer do filme.

Trailer do filme Bicho de Sete Cabeças

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Stress e Qualidade de Vida


Quantos compromissos você tinha hoje? Pensou em tudo o que deveria fazer durante o dia, tarefas como ir ao banco, pegar os filhos na escola, ir para a faculdade, trabalhar o dia inteiro, levar o carro para a oficina, resolver um problema jurídico, limpar a casa, escrever a monografia, ajudar os filhos com a tarefa de casa. Esses são alguns exemplos de cotidiano o qual nós vivemos e que acabam desencadeando um ritmo de vida frenético e cansativo. Trabalhar e estudar, por exemplo, não é uma tarefa das mais fáceis; você tem que lidar com os problemas do trabalho, chegar cansado na faculdade, assistir aula, depois enfrentar o trânsito, chegar em casa, estudar, dormir e repetir tudo na manhã seguinte.  O enfrentamento dessas responsabilidades aliado a hábitos pouco saudáveis irá inevitavelmente gerar um nível de stress no sujeito que poderá ocasionar problemas mais sérios. Mas o que é o stress?

Quando o organismo quando é submetido situações ameaçadoras ou com algum componente emocional intenso, secreta os hormônios epinefrina (adrenalina) e norepinefrina noradrenalina) que, através da corrente sanguínea, chegam às terminações nervosas do sistema nervoso simpático provocando a aceleração do batimento cardíaco e da respiração, acompanhado do aumento de fluxo de sangue para os músculos do esqueleto e da liberação de gorduras, ou seja, o organismo prepara-se para lutar ou fugir.

Rodrigues (1997) traz uma definição de estresse como:

 "Uma relação particular entre uma pessoa, seu ambiente e as circunstâncias às quais está submetida, que é avaliada pela pessoa como uma ameaça ou algo que exige dela mais que suas próprias habilidades ou recursos e que põe em perigo o seu bem-estar" (p.24)

O stress vem quando a pessoa entende aquela situação como perigosa (sendo esse um processo inconsciente), prejudicial ou se sente oprimida pelo ambiente, causando as reações físicas como irritabilidade, ansiedade, medo, dores musculares, fadiga, insônia, perda de apetite, taquicardia, diminuição da concentração e memória. O excesso de stress sendo vivido por esse indivíduo diariamente, por um longo período, pode gerar problemas mais sérios como Transtorno de AnsiedadeGeneralizada, Transtorno de Pânico, Neurastenia, Depressão.  Para evitar isso, é fundamental que as pessoas aprendam a lidar com o stress, uma vez que evitá-lo é bem mais complicado. Mas então como fazer isso?


Hábitos saudáveis sempre ajudam, tais como: uma boa alimentação (reduzir o sal, açúcar e frituras, comer mais frutas, beber muita água); praticar alguma atividade física, até uma caminhada na pracinha já ajuda (escolher os dias da semana para tal se o seu cotidiano for muito puxado); evitar o fumo e o excesso de bebidas alcoólicas. Elabore estratégias para tentar evitar passar horas no trânsito (se puder ir a pé para o trabalho ou de bicicleta), evite a cafeína (além de ser um estimulante, o abuso dessa substância causa malefícios associada ao stress), evitar levar os problemas para a cama ou ficar pensando no que tem de fazer no dia seguinte antes de dormir, organizar melhor o dia para não se sobrecarregar de responsabilidades. Além disso, tentar não se aborrecer por pequenas coisas, ter um horário para o lazer e não acumular sentimentos negativos.



Faço aqui um parêntese sobre a questão do lazer. Atendo muitos pacientes que não entendem o significado do lazer e acabam por fazer coisas que acham que devem fazer, mas que realmente não querem. O lazer é uma atividade relaxante, prazerosa para a pessoa, onde ela irá se desligar das responsabilidades, dos problemas, onde ela poderá desfrutar de algo seu sem nenhuma obrigação. O que é lazer pra mim pode não ser para você. Tem gente que odeia ir a praia e tem gente que detesta cinema. Então o lazer é algo particular de cada um, o importante é não esquecer da regra de ouro, deve ser algo que lhe traga prazer e relaxamento e que não haja obrigações envolvidas.



Todas essas estratégias vão melhorar sua qualidade de vida, pois no nosso modo de vida atual é impossível não ter stress por conta das responsabilidades, mas podemos viver melhor mudando alguns hábitos. Caso seu stress esteja elevado e você não esteja dando conta, causando uma sensação de confusão que te impede de tomar decisões em várias áreas da sua vida, procure um Psicólogo para lhe auxiliar a enfrentar esse momento de crise. No mais, aproveitem bem a vida que dá tudo certo!



Referências:


Rodrigues, A. Stress, trabalho e doenças de adaptação. in: Franco, a.c.l. &Rodrigues, a.l. (1997). Stress e trabalho: guia prático com abordagem psicossomática. São Paulo: Atlas.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #4: Uma Mente Brilhante

Trago hoje para vocês esse filme que retrata muito bem o desenvolvimento de um transtorno psicológico na visão do paciente. Não quero entrar em detalhes para não dar spoiler sobre o filme, mas recomendo fortemente. 

Uma Mente Brilhante

Título Original: A Beautiful Mind
Ano: 2001 
Atores principais: Russell Crowe, Ed Harris, Jennifer Connelly 
Direção: Ron Howard
Gênero: Drama


Sinopse: John Nash (Russell Crowe) é um gênio da matemática que, aos 21 anos, formulou um teorema que provou sua genialidade e o tornou aclamado no meio onde atuava. Mas aos poucos o belo e arrogante Nash se transforma em um sofrido e atormentado homem. Porém, após anos de luta para se recuperar, ele consegue retornar à sociedade e acaba sendo premiado com o Nobel.



Esse filme retrata a vida de John Nash, que atualmente ainda é vivo, no começo de sua carreira quando começou a se aprofundar em várias teorias matemáticas e que trabalhou na Teoria dos Jogos. É um filme biográfico que mostra a relação pessoal e laboral de Nash, quando ele começou a ter problemas relacionados ao seu trabalho e como isso mudou sua vida. Nenhuma pessoa que estuda saúde mental deveria ficar sem ver esse filme. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Distúrbios Psicológicos em Relacionamentos Afetivos: Codependência

Outro fenômeno que ocorre nos relacionamentos afetivos é a codependência, mas antes de defini-la, vamos

falar sobre o conceito de dependência.  Dependência é quando o indivíduo não é capaz de realizar algo ou dar conta de sua vida sozinho, ele precisa de alguém para auxiliá-lo nesse processo. Geralmente somos muito dependentes dos pais na infância, quando estamos desenvolvendo nossa personalidade e compreendendo o mundo através das relações e do brincar. O adolescente já é bem menos dependente, ele já tem consciência de seu papel, de suas necessidades, comumente eles são dependentes financeiramente dos pais. Mas existe outro tipo de dependência que é bem mais complicada: a dependência emocional.

É fácil caracterizar uma pessoa dependente, uma vez que ela assuma uma postura essencialmente passiva; ela deseja que suas necessidades sejam satisfeitas, mas costumam fugir das responsabilidades, criam uma série de desculpas e mecanismos de evitação para não assumir as consequências de seus atos, manipulam os outros para satisfazerem suas necessidades assumindo um comportamento de vitimização. Esse processo pode ganhar uma dimensão muito maior e levar a pessoa a desenvolver uma codependência.

Se faça as seguintes perguntas: Você se preocupa intensamente com outra pessoa? Você precisa estar perto daquela pessoa? Você se sente perdido quando não consegue estar perto? Você precisa do amor exclusivo e absoluto de alguém e só procura sua companhia? Você vê os amigos e familiares desta pessoa como competição? Você é ciumento? Você só consegue se decidir ou agir se a pessoa em questão aprovar?

Dependendo das respostas você pode estar vivenciando uma codependência, que é uma tendência de se comportar passivamente em excesso, que leva a impacto negativo nos relacionamentos e na qualidade de vida de um indivíduo. É geralmente vista como colocando as necessidades do indivíduo abaixo das necessidades dos outros e ficar preocupado em excesso com outros.

O codependente sofre muito com sua condição, pois sua vontade geralmente é subjugada quando se relaciona com pessoas controladoras, autoritárias ou com manifestações de ciúme patológico. Quando o companheiro do codependente é controlador, ciumento, agressivo, ocorre uma sujeição nesse relacionamento que impede o codependente de fazer o que gosta, tendo que se submeter as vontades do outro em detrimento da sua. Já atendi casos onde o marido impedia a mulher (ela sendo a codependente) de estudar, trabalhar e ainda era violento com ela, verbal e fisicamente. Fica claro nesse exemplo que ele queria cortar qualquer possibilidade da mulher de se desligar dele, fortalecendo a relação de dependência.


Muitas mulheres (elas são as mais atingidas pela codependência) vivem situações desse tipo onde se submetem totalmente ao marido, acreditando que isso é amor (ou uma prova do mesmo), entretanto se faz necessário refletir que tipo de amor é esse que domina, massacra e traz um profundo sofrimento. Que amor é esse que aceita a violência porque o marido lhe sustenta ou dá o sustento dos filhos, como se fosse uma justificativa para suportar as agressões? Essas mulheres tem uma autoestima baixa, esquecem de si e se importam demais com o companheiro que as maltrata. É uma condição que requer um acompanhamento psicológico de modo que essa pessoa possa se redescobrir, possa aprender a se valorizar, a compreender como se dá essa dependência afetiva na sua relação e poder criar estratégias para lidar com isso.

O primeiro passo para a mudança da situação é reconhecer a dependência afetiva, mas não é algo que possa ser mudado com facilidade pela pessoa, a orientação profissional é fundamental, pois mesmo com a vontade de mudar não é suficiente para a pessoa codependente, ela simplesmente não consegue superar essa barreira sozinha.



Referências:


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #3: O Silêncio dos Inocentes

Saudações amigos cinéfilos! Trago hoje uma excelente indicação de filme que mostra um psicopata clássico das histórias policiais, muito parecido com alguns que já pisaram por este mundo. Quem sabe eu faça um post sobre psicopatas famosos? Mas sobre este filme, é um roteiro fabuloso baseado num livro de 1988 de Thomas Harris e ganhou 5 Oscars! É uma obra muito importante nos Estados Unidos e por isso é preservada pela National Film Registry. Vamos a ficha do filme:



O Silêncio dos Inocentes

Título Original: The Silence of the Lambs
Ano: 1991
Direção: Jonathan Demme
Gênero: Suspense

Sinopse: Agente do FBI (Jodie Foster) é destacada para encontrar assassino que arranca a pele de suas vítimas. Para entender como ele pensa, ela procura um perigoso psicopata (Anthony Hopkins), encarcerado sob a acusação de canibalismo.





Segue o trailer do filme pra você:

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Distúrbios Psicológicos em Relacionamentos Afetivos: Ciúme Patológico

Não é incomum nos dias de hoje nos depararmos com casos de ciúmes exagerados, crimes passionais, violência contra a mulher, casos que chocam como o assassinato de Eloá, do empresário Marcos Matsunaga diretor executivo da empresa Yoki e muitos outros casos que não chegam ao homicídio, mas causam um sofrimento enorme as vítimas porque envolvem violência psicológica e física. Mas o que pode ocorrer num relacionamento, seja namoro ou casamento, para despertar comportamentos tão nocivos?







Ciúme Patológico

O que é ciúme para você? Qual a diferença entre ciúme sadio e patológico? Essa pode ser uma pergunta aparentemente simples de definir, mas é um assunto complexo que necessita de uma avaliação precisa.  O ciúme é uma reação causada pelo medo, real ou fantasioso, de perder algo ou alguém ou que põe em risco a relação com a pessoa amada. Essa é uma definição bem simples que contempla principalmente as relações afetivas. No ciúme sadio existe uma preocupação com o outro, um medo de perder que é controlado. Podem haver brigas, mas elas não fogem ao controle, não extrapolam em situações absurdas.

Já o ciúme patológico é bem mais gritante.  Existem alguns casos na literatura psiquiátrica que ilustram bem esse tipo de ciúme, como o caso de uma mulher que marcava o pênis do marido assinando-o no início do dia com uma caneta e verificava a marca desse sinal no final do dia (Wright, 1994), e o caso de outro paciente, com ciúme obsessivo, que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos (Torres, 1999).


No ciúme patológico existe o desejo de controle total sobre a vida da outra pessoa; cada passo é seguido, ligações para saber onde a pessoa está, com quem está o que está fazendo são um exemplo disso. Outro tipo de comportamento que ocorre é a invasão de privacidade, a pessoa com ciúme patológico exige sua senha de e-mail, verifica constantemente suas ligações e mensagens no celular, vasculha a bolsa da companheira (no caso de homens), e chegam até mesmo a criar problemas no ambiente de trabalho da pessoa, pois se recusam a aceitar que ela mantenha qualquer tipo de interação social com os outros.

A situação piora muito para o companheiro(a) de uma pessoa com ciúme patológico quando ela começa a ter idéias ilógicas e sentimentos desproporcionais nas situações que se apresentam, tais como ataques de fúria, agressão física, depredação do ambiente e ocorre o risco de homicídio, muitas vezes acompanhado do suicídio da pessoa ciumenta.

O ciumento tenta se justificar sempre, muitas vezes usando argumentos vazios, diz que ama a pessoa, se diz arrependido quando percebe que exagerou, mas acaba por repetir o mesmo padrão de comportamento sempre. Isto se agrava quando o ciumento começa a ter delírios (idéias ou crenças baseadas em fundamentos ilógicos ou sem base na realidade), quando imagina que qualquer ato do seu companheiro(a) culminará em traição, quando sua percepção começa a distorcer os fatos e a realidade em torno de suas inseguranças. O ciumento então desenvolve um sentimento de raiva e vingança contra seu companheiro uma vez que tem a certeza absoluta que está sendo traído a todo momento. A mulher tenta sair dessa situação porque percebe que algo está errado, muito embora não saiba que seu companheiro sofre de um problema psicológico grave, mas seu companheiro não aceita o fim da relação, passa a persegui-la e aí é o terreno onde ocorrem as tragédias, os crimes passionais. 


Para prevenir essas tragédias, o importante é você estar atento aos sinais descritos e pedir ao seu parceiro(a) que busca ajuda, que inclui aí um processo de psicoterapia e dependendo do caso pode ser importante o uso de medicação passada pelo Psiquiatra.


Referências:

Torres AR, Ramos-Cerqueira ATA, Dias RS. - O ciúme enquanto sintoma do transtorno obsessivo-compulsivo. Ver. Bras. Psiquiatria 1999;21:3 158-73

Wright S. - Familial obsessive-compulsive disorder presenting as pathological jealousy successfully treated with fluoxetine. Arch Gen Psychiatry 1994;51:430-I

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Como Assim "Cura Gay"?

Nesse período turbulento de manifestações legítimas por melhorias do nosso país, eis que surge o projeto da "Cura Gay". Achei o artigo do colega psicólogo André Souza, que é Doutor em Psicologia Cognitiva, faz uma crítica e uma reflexão a esse projeto que é uma afronta a Organização Mundial de Saúde, ao Conselho Federal de Psicologia, ao Conselho de Direitos Humanos e Minorias (que ao invés de defender uma minoria está patologizando uma condição intrínseca). Segue o artigo e a fonte abaixo. talvez eu escreve algo também sobre isso no futuro.



Imagine que seu filho esteja passando muito mal! Vomitando sem parar, febre alta e fraqueza no corpo. Pra onde você deve seu filho? Duuuh! Hospital! Por quê? Porque lá está cheio de experts em saúde (i.e., médicos e enfermeiros) e eles certamente irão saber o que fazer com relação à situação do seu filho.

Expertise é uma característica importante. Nós confiamos em experts quando o assunto é algo que não dominamos bem. Contamos com a ajuda de experts até mesmo quando o assunto é uma coisa que não acreditamos muito. Por exemplo, em um estudo que publiquei em 2011 na revista Religion, Brain and Behavior, mostrei que até mesmo quando se trata de um trabalho executado por um pai-de-santo, levamos em consideração a expertise da pessoa e não simplesmente a opinião de uma maioria que não entende bem do assunto. Existem várias vantagens em recorrer a experts quando precisamos de ajuda ou opinião. Nos poupa tempo e até salva vidas (imagine se você tivesse que aprender tudo sobre medicina para ajudar seu filho…). Em outras palavras, pedir ajuda/opinião de especialistas é algo bom e desejável. Não precisamos saber tudo o tempo todo.

Imagine agora uma outra situação. Aliás, imagine não! Recorde. Em 2011, o deputado federal João Campos de Araújo do PSDB de Goiás escreveu um Projeto de Decreto Legislativo (PDC 234/2011) que suspende dois trechos da resolução do Conselho Federal de Psicologia (de 1999). É a tal da “cura gay” (para saber exatamente o que é o projeto e o que ele significa para a prática psicológica, confira o blog  Psicológico do colega Felipe Epaminondas). Em outras palavras, um deputado federal que não é psicólogo propõe um projeto que interfere de maneira direta na prática do profissional de psicologia.

Ok. Tudo bem. Ainda bem que para esses projetos, existem revisores, que são pessoas que lêem o projeto e dão um parecer (opinião) sobre o que é plausível e coerente no projeto. O revisor do projeto foi o deputado federal Anderson Ferreira do PR de Pernambuco. Anderson Ferreira também não é psicólogo. Mas deu um parecer favorável ao projeto. Segundo ele, “a Psicologia é uma disciplina em constante evolução e tem diversas correntes teóricas, sendo difícil determinar procedimentos corretos ou não, metodologias de trabalho apropriadas ou não“. Enfim! Que tal consultar experts no assunto? Consultaram. Os profissionais do Conselho Federal de Psicologia não só não apoiaram o projeto como também lançaram uma campanha contra a sua aprovação. De nada adiantou!

Deixa eu fazer uma analogia pra história mais clara: imagine que seu filho ainda esteja passando mal e um amigo seu advogado diz pra você dar suco de laranja pra ele beber que tudo vai ficar bem. Mesmo assim, você resolve consultar um médico. Ele examina seu filho e diz que ele precisa ser hospitalizado para fazer alguns exames. Então você simplesmente ignora a opinião do médico e dá o suco de laranja pro seu filho beber e pronto. Mais ou menos isso que aconteceu.

O que mais me surpreende é que esse é um padrão recorrente na formulação das leis que são propostas no nosso país. Desde leis que proíbem estrangeirismos na língua portuguesa, até leis que obrigam aulas de direção durante a noite para que o condutor aprenda a dirigir melhor a noite. São raros os casos em que a opinião do profissional, expert no assunto, é levada em consideração na formulação das propostas de leis. É óbvio que mesmo entre os profissionais haverá divergência de opiniões. O besta do Silas Malafaia por exemplo, que também é psicólogo, certamente seria a favor do projeto de decreto do deputado João Campos. Mas é exatamente por isso que existem conselhos e organizações profissionais. Eles são responsáveis pela garantia e manutenção de práticas que são consensuais entre os profissionais. Um médico que acha que gripe deve ser curada com tapas na cara certamente não terá o apoio da maioria dos médicos e, consequentemente, terá que se adequar ao regulamento do Conselho Federal de Medicina.

Em parte do seu parecer, o deputado federal Anderson Ferreira diz que o projeto “constitui direito do paciente buscar aquele tipo de atendimento que satisfaz seus anseios“. O que o deputado parece não entender é que o profissional é o psicólogo e não o paciente. O paciente não pode exigir que psicólogo trate a homossexualidade do seu filho como se fosse uma doença. Eu não vou chegar no consultório do meu médico e dizer: “olha doutor, estou com um sangramento no nariz, mas não quero que esse sangramento seja tratado como uma enfermidade. Por favor, trate meu sangramento como uma manifestação divina.” Não é bem assim que a coisa funciona.

É bem verdade que ainda existe muita coisa que precisamos entender sobre homossexualidade sob um ponto de vista científico. E estamos caminhando bem nessa direção. E todo profissional sério deve expor isso ao paciente. Se a mãe do Joãozinho chega no consultório chorando por que o Joãozinho é gay e ela quer a cura, o papel do profissional é auxilia-la na compreensão de que esse ainda é um assunto/fenômeno complexo e que não há evidências que corroborem qualquer tipo de tratamento da homossexualidade como se fosse um distúrbio ou doença. E mesmo aqueles psicólogos que acham que homossexualidade é um distúrbio, enquanto isso não for consenso entre os profissionais, ele deverá sim agir de acordo com o conselho que rege a profissão. Se não quiser, que vá praticar outra coisa que não seja psicologia.

Se o projeto de decreto é, como diz o outro besta Marco Feliciano, “um projeto [que] protege o profissional de psicologia quando procurado por alguém com angústia sobre sua sexualidade“, então o mínimo que ele deve exigir como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, é que os profissionais de psicologia participem de forma mais ativa na discussão do projeto.


FONTE:  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #2: O Nevoeiro

Dessa vez venho trazer um filme que muitos podem considerar uma "viagem" simplesmente por se tratar de uma ficção científica, com toques de terror e suspense. Entretanto, esse filme desenvolve uma leitura muito oportuna de como se estrutura uma sociedade no limiar do fanatismo religioso, da ausência de regras vivida resultado de uma anarquia generalizada. O filme nos permite fazer uma análise socioantropológica do homem a partir de seu estado mais natural, mostra como as pessoas reagem ao medo e a manipulação e para mim é um verdadeiro tratado de Psicologia. 

Segue a ficha do filme:

O Nevoeiro

Título Original: The Mist
Direção: Frank Darabont
Gênero: Terror/Ficção científica
Ano: 2007

Sinopse: Após uma violenta tempestade devastar a cidade de Maine, David Drayton (Thomas Jane) e Billy (Nathan Gamble), seu filho de 8 anos, correm rumo ao supermercado, temendo que os suprimentos se esgotem. Porém um estranho nevoeiro toma conta da cidade, o que faz com que David, Billy e outras pessoas fiquem presas no supermercado. Logo David descobre que há algo de sobrenatural envolvido e que, caso deixem o local, isto pode ser fatal.


Espero que gostem do filme, aproveitem para refletirem seu conteúdo a partir de algumas obras importantes de Freud, como o "Psicologia das Massas e Análises do Eu" e o "Mal-Estar na Civilização".

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nota Pública do Conselho Federal de Psicologia sobre PL do Ato Médico


Na calada da noite de terça-feira (18/6), o Senado Federal antecipou a ordem do dia e aplicou um duro golpe nos profissionais de saúde com a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 268/2002, que dispõe sobre o exercício da Medicina, conhecido como Ato Médico. O PL foi colocado na pauta pelo presidente da Casa, Renan Calheiros, e pelo senador Romero Jucá, fruto de mais um acordo fechado com apoio da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.

O orgulho da classe médica ao comemorar a aprovação do PL dentro do Plenário do Senado fere não somente a Psicologia, mas todo o paradigma de saúde que o Brasil conquistou na construção do Sistema Único de Saúde (SUS), fortalecendo a ideia de que a saúde é uma construção multiprofissional, que envolve várias atividades.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se manifesta, de maneira ainda mais incisiva, por meio da campanha lançada hoje, para que a presidente Dilma Rousseff vete o artigo que atribui ao médico a função do diagnóstico nosológico e da prescrição terapêutica, áreas nas quais não possui habilitação. A autarquia vai dispor de toda sua capacidade de articulação com o governo, entidades ligadas ao tema e sociedade civil para que esse projeto não siga adiante: O Ato Médico Ata-Nos #VetaDilma VETA!

Desde o início de sua tramitação, o CFP e diversas categorias da saúde pública no Brasil se mobilizaram pela não aprovação da matéria, que interfere no exercício de outras profissões da saúde. As ações mais recentes incluem um pedido, realizado em 13 de junho pelo Fórum dos Conselhos das Profissões da Área da Saúde (FCPAS), em reunião com o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, sobre a reforma do artigo 4º – o qual estabelece que as competências privativas da atividade médica sejam limitadas à sua área de atuação, a fim de evitar a insegurança jurídica para as demais atividades de saúde.

É importante frisar que não há posicionamento contrário à regulamentação da Medicina. Os médicos podem e devem trabalhar para que a sociedade reconheça as competências específicas destes profissionais. No entanto, isto não pode ser feito em detrimento de qualquer outra profissão na área da saúde.

O PL pretende tornar privativo da classe médica todos os procedimentos de diagnóstico sobre doenças, indicação de tratamento e a realização de procedimentos invasivos e, ainda, a possibilidade de atestar as condições de saúde, desconsiderando a trajetória das demais profissões que constituem o cenário da saúde pública na ótica do SUS.

Igualmente, torna privativa do médico a chefia de serviços, indicando uma hierarquização que não corresponde aos princípios do trabalho multiprofissional que precisa ser construído na saúde. O PL coloca em evidência o interesse corporativista por reserva de mercado. Haja vista que teve origem na Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 1.627/2001, cujo texto elucida o tema.

O Ato Médico, além de prejudicar a autonomia de cada profissão, impede a organização de especialidades multiprofissionais em saúde. Milhões de usuários sabem os benefícios do SUS e reconhecem o valor de todos os profissionais no cotidiano das unidades de saúde. Hoje, uma série de políticas públicas de saúde, como Saúde Mental, Atenção Básica e outras oferecidas à população, contam com profissionais de várias áreas trabalhando de forma integrada e articulada. As equipes multidisciplinares definem em conjunto o diagnóstico e o tratamento, somando suas diversas visões de saúde e de doença para chegar à melhor intervenção. Os usuários não podem ser penalizados desta forma, perdendo esta possibilidade.

Desde que o Projeto de Lei do Ato Médico foi apresentado pela primeira vez no Senado Federal, em 2002, o CFP luta e se mobiliza para que o dispositivo não seja aprovado da forma como está, uma vez que restringe a atuação dos outros profissionais da área e cria uma hierarquização em detrimento da multidisciplinaridade consagrada pelo SUS.

Ao longo deste período, em conjunto com os Conselhos Regionais e outros conselhos da saúde, participou de inúmeras manifestações. Esse cenário constitui uma atuação histórica, destacada na defesa de temas de interesse coletivo e não corporativistas na área da saúde, como é o caso do PL do Ato Médico.

O CFP sempre esteve à frente das manifestações contra a aprovação desse Projeto de Lei, e permanecerá. Já reuniu milhares de pessoas em atos realizados, em conjunto com outras profissões da saúde, em diversas cidades e capitais brasileiras, promovidos constantemente desde 2004. As entidades da Psicologia continuarão em vigília e mobilizado os diversos atores para que o PL do Ato Médico seja vetado pela líder do Poder Executivo.

Vamos apelar para que a sanção da presidente Dilma Rousseff priorize o consenso das profissões da área da saúde, garantindo a regulamentação da medicina, a autonomia das demais profissões de saúde e, principalmente, a existência do SUS.

 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA

DIGA NÃO AO ATO MÉDICO, ENVIE SEU MANIFESTO #VETADILMA

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Problema da Anorexia e Bulimia


Nossa mídia, as pessoas que você conhece, os profissionais de saúde estão o tempo todo nos bombardeando com o discurso de que você deve ser saudável, de que deve se alimentar bem, que ser magro é bonito. Sim, ser magro se tornou padrão de beleza em nossa sociedade exibindo modelos esqueléticas em comerciais e atrizes magérrimas em novelas e despertando nas jovens a repulsa pelo próprio corpo e o desejo de ter um corpo "sarado".

Numa mentalidade que está firmando uma identidade, no caso das adolescentes, esse bombardeiro da mídia pode causar sérios danos caso não haja um cuidado dessa pessoa em filtrar essas informações, além da orientação dos pais em cima disso, podendo ser o início de um problema muito mais complicado: os transtornos alimentares.


Vamos deixar claro aqui que ser saudável, ter uma boa alimentação e hábitos saudáveis não necessariamente implica na pessoa ser magra, o que vai determinar a massa corpórea é a alimentação dessa pessoa aliada a atividade física. Então saiba que você pode estar saudável e ter um pouquinho de gordura, ter uma barriguinha e isso não é algo do outro mundo.  Outros fatores vão entrar nessa equação, como problemas hormonais, genética da obesidade, sedentarismo. Consulte uma nutricionista se você quer emagrecer e tenha força de vontade em seguir as orientações, garanto que você consegue com um pouco de disciplina.



Segundo pesquisas, os transtornos alimentares de anorexia e bulimia ocorrem predominantemente em mulheres numa proporção de dez mulheres para um homem (Nunes; Galvão; Appolinário; Coutinho, 2008), principalmente jovens e adolescentes. Essas meninas desenvolvem uma ideia fixa de que estão sempre gordas, acima do peso, com gordura em excesso no corpo e por isso adotam práticas para emagrecer que põe em risco não apenas sua saúde, mas a própria vida como veremos adiante.

É nesse momento, quando a imagem corporal que a pessoa tem de si e a imagem real entram em desacordo. Aquela pessoa, mesmo magra, se olha no espelho e se vê gorda, o que chamamos de uma distorção da autoimagem. E ela perde peso e mais peso e nunca se dá por satisfeita, continua se vendo da mesma forma e não consegue perceber que algo está errado nela, não consegue ter consciência de que está doente. É quase como uma pessoa que usa óculos de um grau que não é seu, ela vai enxergar tudo distorcido, mas para ela aquilo é a verdade, é a sua realidade e não há quem a convença do contrário.


Eu poderia relatar aqui as práticas que uma anoréxica ou uma bulímica fazem, mas não o farei pelo simples fato de que alguma pessoa com esse quadro pode ler e querer replicar esses comportamentos, todavia vou dar algumas noções de como identificar um possível transtorno alimentar para que a família possa buscar ajuda para esse sujeito.



O que é Anorexia e Bulimia?
Resumidamente, na anorexia a pessoa tem uma preocupação excessiva com o peso, com a imagem corporal e quer emagrecer a todo custo, enquanto que na Bulimia há episódios onde a pessoa se alimenta mais do que o normal num curto espaço de tempo e vem um sentimento de culpa levando a pessoa a purgar tudo o que comeu, gerando assim um ciclo entra alimentação excessiva e purgação. 


Alguns sinais que a pessoa com Anorexia pode apresentar:

-Perda acentuada de peso;
-Fraqueza;
-Sono em excesso;
-Contagem obsessiva de calorias;
-Evitar refeições;
-Esconder comida;
-Alteração do desejo sexual (em geral redução);
-Mentir sobre o quanto já ter comido;
-Ingerir apenas um determinado tipo de comida;
-Fazer exercício em excesso, particularmente depois de uma refeição;
-Excessivo interesse em questões relacionadas com peso, imagem corporal e dietas;
-Doenças frequentes (associadas a baixa imunidade);


Manifestações que uma pessoa com Bulimia pode apresentar:

-Esconder a comida para ingerir depois;
-Mentir sobre o que comeu;
-Comer compulsivamente em segredo; 
-Vomitar em segredo;
-Comprar laxantes ou diuréticos; 
-Deixar a água da torneira derramando para que o barulho abafe os episódios de purgação; 
-Demonstrar uma preocupação profunda em relação ao peso, forma do corpo e aspecto em geral;
-Frequentes dores de garganta (causadas pelos repetidos vômitos);
-Problemas dentários (também causados pelos vômitos);
-Demonstrar pouco ou nenhum impulso sexual.

É importante que a família identifique esses atos o mais precoce possível e busque um Psicólogo e um Psiquiatra para iniciar a Psicoterapia com esse sujeito, de modo a evitar o agravamento do quadro. Pacientes anoréxicas chegam a ficar tão magras que você é capaz de contar os ossos de seu corpo, muitas precisam de internação hospitalar (já tive pacientes assim) para receber uma dieta hipercalórica via sonda nasogástrica, uma vez que o organismo da pessoa já estava extremamente debilitado. A falta de alimentação faz com que o corpo dessa pessoa funcione no limite, podendo causar danos aos órgãos internos.

Há uma certa dificuldade no tratamento da anorexia e bulimia pela dificuldade do paciente em aderir ao tratamento, porque ele não se percebe como doente, não se dá conta da distorção que sua mente criou entre sua imagem real e a que ele olha no espelho, manifestam dificuldades quanto ao uso da medicação e sofrem inúmeras recaídas durante o tratamento, podendo nesse intervalo ocorrer alguma internação hospitalar. Fica o alerta para detectar esse tipo de transtorno o mais breve possível.


Referências:

NUNES, Maria Angélica; APPOLINÁRIO, José C.; GALVÃO, Ana Luiza; COUTINHO, Valmir. Transtornos alimentares e obesidade. Porto Alegre: Artmed, 2008.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #1: A Origem

Sempre passando boas dicas de filmes que abordam temas relacionados a Psicologia de alguma forma, venho aqui falar sobre um filme realmente sensacional. Trata-se de "A Origem", um filme de 2010 cuja temática gira em torno dos sonhos. Aí vai a ficha do filme com a sinopse:

A Origem
Título Original: Inception
Ano: 2010
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ficção
Trilha Sonora: Hans Zimmer

Sinopse: Em um mundo onde é possível entrar na mente humana, Cobb (Leonardo DiCaprio) está entre os melhores na arte de roubar segredos valiosos do inconsciente, durante o estado de sono. Além disto ele é um fugitivo, pois está impedido de retornar aos Estados Unidos devido à morte de Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, Cobb aceita a ousada missão proposta por Saito (Ken Watanabe), um empresário japonês: entrar na mente de Richard Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro de um império econômico, e plantar a ideia de desmembrá-lo. Para realizar este feito ele conta com a ajuda do parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a inexperiente arquiteta de sonhos Ariadne (Ellen Page) e Eames (Tom Hardy), que consegue se disfarçar de forma precisa no mundo dos sonhos.


Perde a graça se eu revelar a vocês mais do que está na sinopse, mas de antemão adianto que o filme trata de muitos conceitos bacanas, não apenas relacionados ao sonhar, mas também ao que diz respeito a teoria dos simulacros e simulações de Jean Baudrillard. É um filme que não só tem uma estória envolvente e muito bem desenvolvida como também fomenta inúmeras discussões bacanas no terreno fértil da Psicologia, principalmente a Psicanálise e a Psicologia Analítica. Recomendo esse filmaço.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Reflexões Acerca da Redução da Maioridade Penal


Muito tem se falado ultimamente sobre a questão da redução da maioridade penal por conta da quantidade de crimes hediondos que vem ganhando notoriedade nos noticiários e do discurso inflamado dos representantes midiáticos e dos revoltados com a impunidade tão presente em nosso país.  Gostaria de tecer alguns comentários sobre o tema e tentar explicar porque a redução da maioridade penal não vai resolver o problema da violência.

O principal instrumento que regulamenta os Direitos e Deveres das crianças e adolescentes no Brasil é o Estatuto da Criança e do Adolescente- ECA – que completará em julho próximo 23 anos, tendo sido muito criticado nos últimos tempos por conta de uma série de mudanças em nossa sociedade. O ECA tornou-se bode expiatório de toda violência cometida por adolescentes, de modo que muitos debates hoje giram em torno da alteração dessa legislação.

Do meu ponto de vista eu acredito que alguns pontos realmente precisam ser revistos, mas o ECA não é o culpado pela onda de violência, assim como o Código Penal Brasileiro também não o é.  O Estatuto da Criança e do Adolescente preconiza claramente que:


“Art. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.”



Desta forma, é dever do Estado dar condições a esses jovens para que se desenvolvam de forma sadia, o que sabemos que não ocorre na verdade. Se analisarmos o nosso contexto social atual perceberemos que há uma falência do serviço público prestado à população que mais precisa dele, em especial educação, lazer e saúde. A cultura do banditismo, das drogas, do “ser legal é ser bandido” tem se alastrado pelas comunidades como um câncer, levando jovens com pouca ou nenhuma perspectiva de futuro para o caminho do crime. 


As funções familiares, não apenas das famílias mais humildes embora sejam  as mais afetadas, estão fragmentadas, desestruturadas, deixando os jovens sem referencial paterno/materno. São famílias cujos membros são alcoolistas, usuários de drogas, ambientes permeados pela violência doméstica, pelo embotamento afetivo, pela incapacidade desses pais em orientar os filhos (onde muitas vezes nem eles foram orientados).

De outro lado encontramos o traficante, o bandido da comunidade imbuído de um grande poder simbólico, ostentando o poder de dar a vida e a morte através de suas armas ilegais, o medo e o respeito passado através de seu comportamento de juiz de rua, decidindo e ordenando na comunidade, desfilando com mulheres, carros e outros objetos de valor conseguidos através de atividades ilícitas.
Nesse panorama, com quem você acha que o jovem da comunidade vai se identificar? Quem será o herói para ele? É mais fácil estudar numa escola pública onde os professores ganham mal, onde tudo é sucateado, tendo que esperar anos até atingir uma mudança na sua realidade de vida ou simplesmente o dinheiro fácil proporcionado pelo tráfico que é muito mais rápido e atrativo?

Vivemos numa sociedade doente meus amigos, e essa doença está se espalhando pelos nossos jovens, matando-os. A falência dos sistemas punitivos é notória e torna-se mais um elemento dessa complexa equação, onde o órgão que deveria ser recuperador se torna mais um depósito de pessoas, tal qual eram os manicômios. Centros Educacionais (onde ficam os adolescentes que cometeram delitos) sem estrutura e com excesso de contingente funcionando de forma precária não são capazes de devolver a cidadania para esses jovens, se é que eles um dia foram orientados a compreender o significado dessas palavras.  
Como podemos dar algo que não conhecemos? Como posso ser cidadão se me sinto excluído, se não fui orientado sobre meu papel para o crescimento social da minha comunidade? Acabo por assumir o papel mais conveniente ou que outras pessoas me atribuem: bandido.



Os apresentadores de programas policiais e políticos corruptos inflamados em seus discursos por uma redução da maioridade penal, tentam convencer a população que o problema está no ECA, que encher os Centros Educacionais vá mudar alguma coisa e eu lhes digo que isto não é o caminho mais adequado. Concordo plenamente que nossa sociedade necessite de Leis mais rígidas, mas que também tenha estrutura para executá-las. Reduzir a maioridade penal é como receitar paracetamol para um câncer.

Deve haver uma revisão do ECA sim, acompanhada por profissionais que trabalham na área como Psicólogos, Assistentes Sociais, Pedagogos, dentre outros, mas principalmente o investimento em políticas públicas de base que não apenas forneçam uma melhor educação, mas uma estrutura para as comunidades mais carentes, com projetos para ocupar e ensinar a esses jovens, áreas de lazer e uma saúde melhor. Só assim começaremos a pensar numa mudança real e não um faz de conta apresentado por aqueles que defendem a redução da maioridade penal.


Referência Bibliográfica: 

Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei Federal n°8069 de 13 de julho de 1990. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm .


quarta-feira, 5 de junho de 2013

VIOLÊNCIA!

Violência. A onda de violência na TV me cansa, me mostra um mundo doente que não percebe que está doente, um mundo desumano que tenta ser humano e cada vez mais falha miseravelmente. Pessoas cada vez mais tendo atitudes incoerentes, deixando seus sentimentos mais sombrios e egoístas transbordarem em uma série de atos cruéis praticados contra seus semelhantes. Se o que nos distingue dos animais irracionais é a capacidade de refletir porque não nos debruçamos sobre essa reflexão e pensamos melhor sobre como a violência nos permeia? Porque deixamos a violência tomar espaço, ser liberada como as águas caudalosas de uma represa arrebentada, diretamente escoando de nosso inconsciente, de nossas frustrações, de nossos desejos sombrios. Porque é bom ser violento, esse é o motivo.

Somos reprimidos o tempo todo, somos tolhidos em nosso ser contra nossas frustrações, nossos sonhos esmagados, nossas esperanças desastrosas e acabamos por afundar em nossa própria angústia, atrás de uma boia que possa nos salvar da perdição de nossa própria falha. E aí vem a raiva, a vontade de descarregar todo ódio contra esse mundo injusto, nas pessoas que acharam que nos prejudicaram, o desejo de vingança vem como uma febre inesperada tomando todo nosso ser e quando percebemos estamos agindo como nunca esperávamos que fôssemos capazes. Mas somos, porque o ser humano é o pior animal do mundo, por ser racional, é capaz de mais irracionalidades que os irracionais. E assim, a violência cresce pautada nos egos feridos, nos limites frágeis da constituição humana, atingindo toda sociedade num efeito dominó incontrolável. Se por acaso trocássemos a violência pela gentileza o efeito seria muito mais saudável, proveitoso, contudo o homem é seu próprio algoz.


E assim, eu estou cansado, cansado dessa violência sem sentido. Abomino-a, e abomino a mim mesmo por saber que muitas vezes ela é necessária. 


sábado, 1 de junho de 2013

Entendendo a Síndrome do Pânico e a Ansiedade Generalizada



Hoje gostaria de compartilhar com vocês um pouco sobre a famigerada "Síndrome do Pânico" como é popularmente conhecida ou Transtorno de Ansiedade Generalizada ou ainda Transtorno do Pânico (ansiedade paroxística episódica) um quadro bastante frequente nos dias de hoje e cujo venho me deparando comumente na clínica. Acredito que de dez pacientes que vem ao meu consultório, seis relatam sintomas compatíveis com o quadro. 

O que é Transtorno de Ansiedade Generalizada e Transtorno do Pânico?

São quadros bem similares associados a diversos sintomas, sendo a principal sensação o ataque de pânico onde a pessoa sente um medo irracional, muitas vezes acreditando que vai morrer ou passar muito mal. Esse ataque de pânico causa várias alterações orgânicas no momento em que é desencadeado, tais como taquicardia, hiperventilação, pressão arterial elevada, asfixia, náusea, desconforto abdominal, tontura, dores no peito e sensações subjetivas de pavor e morte iminente (DSM-IV-TR, 2003).  No Transtorno do Pânico a característica essencial são os ataques de pânico, já na ansiedade generalizada  os sintomas são variáveis, mas compreendem nervosismo persistente, tremores, tensão muscular, transpiração, sensação de vazio na cabeça, palpitações, tonturas e desconforto epigástrico, sempre iniciados por um pico de ansiedade que faz a pessoa passar mal.



Como a pessoa desenvolve esses quadros?

Geralmente são pessoas jovens, que trabalham, estudam, tem diversas responsabilidades, mas também atinge uma parcela considerável de pessoas de meia idade. Algumas características da personalidade dos pacientes que atendo sempre se repetem, um indicativo de que as formas de agir mal adaptadas contribuem para desencadear o quadro clínico. São pessoas controladoras, excessivamente preocupadas com tudo, são pouco flexíveis nas situações cotidianas, sofrem de níveis elevados de estresse, tem expectativas altas em relação ao que fazem, os pensamentos negativos de falha ou incapacidade são predominantes, acumulam problemas, estão sempre cheios de conflitos internos e externos. Tudo isso faz com que a pessoa sinta uma pressão ambiental muito intensa, culpando o mundo externo por suas falhas, levando-a a temer agir e desempenhar seus papéis sociais.

Simplesmente o sujeito começa a passar mal, os níveis de ansiedade se elevam e desencadeiam os processos citados acima, o que leva a pessoa a acreditar em várias distorções: a mais comum é achar que tem um problema cardíaco, acabam indo parar nas emergências dos hospitais acreditando piamente que estão enfartando até os médicos perceberem que não se trata disso e receitarem "calmantes" para essas pessoas; outras passam a evitar sair de casa, ir a escola/faculdade, ir ao trabalho pelo medo de passar mal (como dizem muitos dos meus pacientes, "Tenho medo de passar mal e não ter ninguém pra me ajudar" ou "Eu sei que se eu sair eu vou passar mal" (sic)).
A pessoa simplesmente não entende o que está acontecendo com seu organismo e o medo vira um ciclo que é retroalimentado pelas suas falhas que geram mais ansiedade e insegurança, assim quanto mais medo de passar mal, mais forte é a crise, mais incerteza a pessoa tem sobre suas capacidades e sua tendência é evitar todas as situações que lhe pareçam ameaçadoras. Quanto mais tempo a pessoa demorar para procurar um profissional, mais o quadro irá se agravar levando diversas perdas ao seu universo pessoal.  É importante salientar que esse quadro pode vir associado a outros Transtornos, como Depressão, por exemplo, tudo vai depender da avaliação do Psicólogo/Psiquiatra para determinar o diagnóstico.



Hábitos saudáveis ajudam a prevenir a manifestação da ansiedade excessiva. É importante que a pessoa tenha um lazer, não trabalhe excessivamente ou evite o estresse no trabalho, em casa que aprenda a lidar com os conflitos familiares, com os conflitos internos, faça atividade física e evite álcool e tabagismo. Na dúvida, não tenha medo de recorrer a um profissional afim investigar seus sintomas para determinar se existe um quadro de Ansiedade Generalizada ou Ataque de Pânico estabelecido.  O tratamento não é complicado, mas requer uma mobilização do paciente para mudança de certos hábitos e dependendo da intensidade dos sintomas pode ser necessário uma intervenção farmacológica. 


Referências:

CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=77