quinta-feira, 6 de julho de 2017

DEBATE SOBRE O FILME "CAKE UMA RAZÃO PARA VIVER" E A PREVENÇÃO DE SUICÍDIO

Olá a todos que acompanham meu trabalho, hoje estou compartilhando com vocês a entrevista e o debate acerca do filme Cake- Uma Razão Para Viver, que aconteceu na Universidade de Fortaleza, Unifor. Falamos sobre o filme e sobre prevenção do suicídio. 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

VAMOS FALAR SOBRE 13 REASONS WHY


Demorou, eu sei. Existem muitos textos sobre isso na internet hoje, entretanto eu precisava assistir e escrever sobre isso, uma vez que trabalho com saúde mental e prevenção ao suicídio. Tomei o cuidado de não ler nada, nenhum artigo sobre essa série, para não me "contaminar" e poder escrever minhas ideias de forma mais clara e autenticas o quanto possível. Nesse artigo, minha proposta é analisar a série, contrapor com meus pensamentos e com dados de estudos científicos relacionados à saúde mental e prevenção de suicídio.

[AVISO!!! SE VOCÊ NÃO ASSISTIU E NÃO QUER RECEBER SPOILERS, ASSISTA E DEPOIS VOLTE AQUI. ESTOU AVISANDO, VAI TER SPOILERS AQUI DA SÉRIE. SE VOCÊ NÃO SE PREOCUPA COM ISSO ENTÃO PODE CONTINUAR.]

Lembro que quando começaram a falar da série 13 Reasons Why houve muito burburinho sobre aquilo estar sendo mostrado, se não poderia incentivar as pessoas. Ouvi um comentário dizendo que o suicídio era tratado de forma romantizada na série e muitas pessoas pisando em ovos com relação ao tema. Pois digo exatamente o que penso: precisamos falar sobre suicídio, sem medos e sem tabus.  Eu compreendo o medo das pessoas, mas existe muita informação sobre o tema disponível, talvez as pessoas não tenham acesso, não sei. Mas aqui terão acesso a informação científica e espero que possam aquietar essas angústias. Visitem outros artigos meus acerca do tema (clicando aqui, aqui e aqui).

13 REASONS WHY

Gostaria de falar primeiro como expectador, não como psicólogo. Eu me entreguei ao assistir a série, sozinho, concentrado, me senti em certo momento fazendo parte daquele mundo, daquela escola com aqueles alunos e seus dramas. Passei por seus dores, medos, raivas, decepções. Houve momentos em que fiquei triste, outros em que me senti bastante angustiado e outros em que vibrei de alívio. Mas também vieram momentos de dor e pesar. A série realmente é muito densa, aborda temas pesados e é capaz de mexer bastante com o sentimento das pessoas. Há uma progressão, senti que ela começa e conforme avança vai ficando cada vez mais e mais pesada em cima das problemáticas a qual retrata.



Agora vamos ao meu olhar de psicólogo. A série acompanha as experiências de uma adolescente do que seria análogo ao nosso 2o ano do ensino médio, Hannah Baker, que logo de cara você recebe descobre que ela cometeu suicídio e que os alunos estão tentando lidar com isso. Então o melhor amigo dela, Clay, recebe um pacote com fitas cassetes e descobre que Hannah gravou 13 fitas falando sobre como se sentia e de coisas que aconteceram com ela, levando a tomar sua decisão de tirar a própria vida. Clay vai ouvindo as fitas e o expectador vai descobrindo, junto com ele, tudo aquilo pelo qual Hannah passou, vai descobrindo os segredos dos seus colegas de escola e se dando conta de como tudo poderia ter sido evitado. Gostaria de ressaltar pontos chave para comentar e ficar algo mais organizado.

-BULLYING: É um dos temas centrais do seriado e é um dos grandes problemas que impulsionam as taxas de suicídios entre os jovens. Vejam essas reportagens:

  • Garoto se Suicida após sofrer bullying e colégio não tomar atitude (aqui)
  • Suicídios de meninas de 17 e 13 anos reacendem debate sobre bullying em escolas na França (aqui)
  • “Não aguento ir ao colégio”: Diego de 11 anos, suicida-se por sofrer bullying na escola (aqui)


O que é retratado na série não está longe do mundo real, pelo contrário, está bem colado. Mas o que sabemos sobre a correlação entre bullying e suicídio? Algumas pessoas (até mesmo pais), podem achar exagero um aluno cometer suicídio por sofrer bullying na escola. Vamos aos estudos.

  • Suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, resultando em aproximadamente 4.400 mortes por ano nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle de Doenças. 
  • Vítimas de Bullying tem de 2 a 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas que não sofrem bullying, de acordo com estudos da Universidade de Yale. 
  • Um estudo britânico estimou que metade dos suicídios entre jovens estão relacionados ao bullying, meninas de 10 a 14 anos tem mais chance de cometer suicídio. 

Há muitas situações em 13 Reasons Why que podem ser enquadradas como bullying. Muita gente acha que bullying é apenas quando ocorre violência física, portanto acho importante trazer uma definição do que seria bullying. 

"É qualquer forma de abuso,  psicológico, verbal ou físico, que ocorreu entre crianças de escola várias vezes ao longo de um determinado momento." 

Logo de início, Hannah se envolve com Justin, jogador de basquete da escola, popular entre as garotas, mas um rapaz que só quer saber de curtição. Ele tira uma foto por baixo da saia de Hannah e espalha através dos aplicativos de mensagem para celular em toda escola. Isso já é um passo além, pode ser considerado cyberbullying, que é o bullying através das redes sociais e de meios eletrônicos. Hannah se sente mal por virar assunto da escola, começa a imaginar o que estão falando dela, boatos sobre ela ser fácil e de contato sexual se espalham. Esse é o primeiro conflito que Hannah tem de lidar. 

Não é fácil lidar com cyberbullying tanto quanto o bullying convencional. 

  • Após ter vídeo íntimo compartilhado na internet, italiana comete suicídio (aqui)

Algo que é comum hoje em dia, gravações de vídeos íntimos, fotos íntimas que são vazadas, muitas vezes por vingança, outras vezes de forma inconsequente, podem acarretar transtornos terríveis na vida dessas pessoas. No ambiente escolar isso é bem mais impactante, porque aquele aluno(a) acaba sendo visado, seu rendimento escolar cai, faltas são comuns, muitas vezes o aluno  não suporta a pressão e muda de escola ou pode simplesmente abandonar os estudos. 

-ESTUPRO/ ABUSO SEXUAL: é bem sabido que este é um dos fatores de risco para suicídio.
Vítimas de abuso ou estupro possuem mais chances de vir a cometer suicídio do que não vítimas. Temos duas situações na série que são bem fortes, ambas envolvendo estupro. A primeira é a Jessica que, bêbada numa festa, é estuprada por Bryce "amigo" de Justin, enquanto Hannah presencia tudo escondida no quarto. Aquela cena é chocante para ela, traumático ver a pessoa que considerou amiga estando indefesa e sendo estuprada. Outro momento é quando Bryce estupra Hannah na banheira, não dando chance dela se desvencilhar. Ela não consegue reagir contra ele e temos aí outro trauma, decisivo para sua decisão final.

"Os adultos que foram vítimas de abuso físico durante a infância relataram índices mais elevados de ideação suicida e relataram ter realizado mais tentativas de suicídio ao longo da vida. Encontramos resultados semelhantes no que se refere às experiências de negligência e ao ambiente familiar disfuncional" (SILVA, Suzana, MAIA, Angela, 2010)

Não é fácil para uma vítima de abuso contar para a família ou denunciar o agressor. Daí a importância do diálogo (que discuto mais abaixo), de haver um canal aberto na família para que caso algo assim ocorra, não seja mascarado e fique oculto durante anos. Já perdi a conta de quantos pacientes atendi na clínica que sofreram abuso na infância, em vários níveis, e nunca contaram para a família, consequentemente nunca houve punição para o agressor, que provavelmente continuou os abusos com outras pessoas.  

-DIÁLOGO: Na série você não vê diálogo ente pais e filhos. Os filhos não conversam com seus pais para dizer o que estão passando, quais problemas estão enfrentando. Pois isso, quando os pais de Hannah a encontraram morta eles não entendia o que havia motivado o ato e passam o seriado inteiro em busca de respostas que os ajude a entender.  Clay passa toda a estória escondendo tudo de seus pais, e em determinado momento quando sua mãe não aguenta mais tantos segredos ele cede e diz que logo vai revelar tudo a ela. Mas a série termina e a mãe de Clay ouve sobre as fitas e sobre o envolvimento de Clay com elas por outra pessoa. Hannah não conta para os pais as coisas que tem passado, os problemas e conflitos que se desenrolam na escola porque sempre que ela tenta se aproximar de alguém acaba dando errado. 

O que gostaria de deixar claro é, o quão importante esse diálogo é e como isso pode ajudar a identificar sinais não só de bullying, mas de depressão e de ideação suicida. Somente ao fim da série, alguns dos alunos que passaram por experiências ruins, como a Jessica que é estuprada, contam o que de fato aconteceu para seus pais. Diálogo é uma forma dos pais acompanharem a vida social e escolar do filho, de poder abrir um canal de comunicação para tratar de assuntos difíceis, fornecer suporte emocional e mostrar o amor que tem.  

-CONSELHEIRO ESCOLAR: Durante toda série eu fiquei observando como aquele conselheiro era de alguma forma estranha, mal preparado para lidar com os alunos, visto que ele não consegue estabelecer um vínculo positivo com ninguém. Todos que vão a sua sala tem a necessidade de falar, e desistem. Conselheiro escolar não é o mesmo que psicólogo escolar, que fique bem claro, ali é uma particularidade das escolas americanas. Todavia, é um profissional que deve estar capacitado para ouvir e orientar os jovens. Apenas no fim o expectador fica sabendo que Hannah o procurou, como última tentativa, um pedido de ajuda, e ele não conseguiu captar a mensagem que ela tentava passar, novamente demonstrando essa dificuldade de criar um rapport com os estudantes. 

Nem sempre as pessoas estão dispostas a falarem sobre seus medos ou sobre coisas dolorosas assim. É muito comum na clínica paciente que só depois de um tempo, quando estão mais acostumados começarem a se abrir e falar dos seus problemas. Mesmo ouvindo o relato de Hannah ele não atentou para o pedido de socorro dela, que estava implícito naquela mensagem. Sim, profissionais não tem bola de cristal, como alguém aí deve estar pensando, mas quem trabalha nesse tipo de posição tem que ter empatia, sensibilidade para perceber essas nuanças. Além disso, é preciso capacitar os profissionais das escolas para perceberem os sinais de ideação suicida. Nem todas as escolas brasileiras possuem psicólogos, e muitas escolas grandes e particulares em geral focam os esforços do psicólogo em outras áreas que não a prevenção de suicídio (tenho amigos que foram psicólogos escolares). Ainda é um tabu grande trabalhar a prevenção de suicídio nas escolas (principalmente nas privadas), mas somente prevenindo podemos evitar tragédias. Todo corpo escolar deve ser capacitado para reconhecer sinais que possam indicar sofrimento psíquico e emocional intensos, de modo a poder se aproximar do aluno e estabelecer uma via de diálogo, dar suporte e avisar os pais e encaminhar para acompanhamentos mais especializados quando for o caso.

-AUTOMUTILAÇÃO: automutilação é um comportamento recorrente em algumas tentativas de suicídio, sintoma de alguns transtornos (vide meu artigo sobre Transtorno de Personalidade Borderline clicando aqui) e até mesmo um diagnóstico de autolesão não suicida. A automutilação pode ser definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio, apesar da nomenclatura, pode envolver queimaduras, fincar objetos na pele, etc. É mostrado, de forma breve, uma personagem com cortes no braços: Skye. Em dois breves takes, Clay percebe que o braço dela está cheio de riscos, cicatrizes de cortes, e a confronta no que ela responde "É o que você faz ao invés de se matar". Comportamento autolesivo não é incomum de ser precedido de ideação suicida, indica um grau de sofrimento psíquico e deve ser cuidado.


-SUICÍDIO: Desde o primeiro episódio de 13 Reasons Why é perceptível o quanto é difícil para os alunos aceitarem e lidarem com o suicídio de Hannah. A maioria prefere evitar o assunto e o expectador sente um clima pesado no ambiente escolar. Todos estão tentando retomar o cotidiano, mas o fantasma do suicídio assombra a escola. Alguns alunos tentam lidar com isso espalhando cartazes, mensagens positivas no armário de Hannah, a escola inclusive inicia um processo de orientar os pais sobre possíveis sinais (mas se não estou enganado isso vem apenas depois que os pais de Hannah entram com um processo contra a escola).

Suicídio é um tabu, é inegável. Não sabemos nem ao menos lidar direito com as mortes cotidianas (sejam de causas naturais ou não), logo enfrentar uma morte auto-infligida é um patamar muito mais difícil para nossa sociedade. Na série, os estudantes que tinham contato com Hannah não admitem (exceto Alex) que tiveram influência em algum ponto para motivar Hannah ao suicídio. Alex é um dos que mais se culpa, a ponto de no último capítulo tenta se matar com arma de fogo.

Gosto sempre de lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo e multideterminado, logo não existe um motivo único para uma pessoa pensar ou cometer suicídio, mas um somatório de fatores, entre riscos e proteção. Se os fatores de risco superam os de proteção então as chances aumentam vertiginosamente. Bullying, decepções, solidão, isolamento, abuso sexual, possível transtorno mental, todos são fatores de risco.

Não fica claro em 13 Reasons Why, até porque é uma obra de ficção e limitada, mas geralmente existe um transtorno mental por trás das tentativas de suicídio. Muitas vezes um transtorno mental que não foi diagnosticado porque a pessoa nunca foi avaliada por um especialista.

Associados ao bullying geralmente temos a depressão, embora isso não fique claro em Hannah, que parece uma adolescente como qualquer outra. Mas o seriado evidencia a constante busca de Hannah por atenção, por relações sociais, algo que lhe e negado quase o tempo todo, gerando um suposto isolamento social (suposto porque isso não é mostrado de forma clara). Alguns transtornos de personalidade são caracterizados por essa busca constante por atenção. Hannah tinha um transtorno de personalidade não diagnosticado? Talvez, é apenas especulação minha, mas acho possível. Apesar de sua proximidade com Clay, parece que para ela aquela amizade não contava, uma vez que estava sempre em busca da amizade de outros, mesmo Clay estando sempre ali para ela. Mais uma característica dos transtornos de personalidade.

Supondo que houvesse um programa de prevenção de suicídio na escola, um canal de comunicação com a família, suporte de amigos, Hannah não teria cometido suicídio. Faltaram fatores protetivos. Mesmo quando ela buscou ajuda, o conselheiro falhou em chegar até ela e interpretar o que ela estava dizendo. Isso vale para a vida real. Devemos estar atentos a esses comentários de que a "vida não presta", "o mundo estaria melhor sem mim", "não sirvo para nada", "seria melhor desaparecer". Comentários assim são pedidos de socorro. Mas vamos aos sinais. 

-SINAIS: Você que assistiu 13 Reasons Why deve ter se perguntando "Quais os sinais de uma pessoa que está pensando em cometer suicídio?". É difícil às vezes ver algo quando não se está procurando ou quando não se sabe o que se está procurando. Os sinais podem ser bem sutis em 13 Reasons Why eles são. O primeiro grande sinal é o poema de Hannah, que Ryan publica sem ela saber e que a deixa mal por saber que seus pensamentos agora são de domínio público. O poema de Hannah é forte e recheado de metáforas sobre sofrimento e o desejo de morrer. Hannah fica muito transtornada ao ver que, mesmo anonimamente, todos começam a comentar seu poema. A mesma coisa acontece com um sujeito com ideações suicidas. Imaginar que as pessoas sabem de suas intenções de tirar a própria vida pode deixá-lo numa situação constrangedora, daí muitas vezes o fato de não falar abertamente sobre isso, de não comunicar diretamente suas intenções. O que nós vamos procurar são sinais indiretos.



Temos que estar atentos a mudanças de comportamento (de repente a pessoa começa a agir diferente do habitual), isolamento, tristeza, explosões de raiva, comportamento auto-lesivo (se cortar, por exemplo), pensamentos mórbidos. identificando essas alterações, podemos conversar com a pessoa e fazer as seguintes perguntas que vão determinar a ideação suicida:



1) Você tem planos para o Futuro? A resposta do paciente com risco de suicídio é não
2) A vida vale a pena ser vivida? A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não
3) Se a morte viesse ela seria bem vinda? Desta vez a resposta será sim par aqueles que querem morrer
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4) Você está pensando em se machucar/se ferir/ fazer mal a você/ em morrer?
5) Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6) Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

Na vida real é mais fácil de perceber esses sinais do que no seriado, visto que a obra de ficção mostra em detalhes o sofrimento de Hannah, mas não os sinais que normalmente os pacientes com ideação suicida dão. A série mostra o suicídio como uma escolha, e aqui eu gostaria de deixar claro meu posicionamento enquanto psicólogo e profissional da saúde. O suicídio é uma opção quando não há apoio. Nunca conheci alguém que quisesse morrer porque sua vida está indo bem, o comportamento suicida é motivado por um sofrimento psíquico intenso e quando não há alternativa para esse sofrimento o indivíduo busca a morte, como forma de alívio. Daí se houver amparo, tratamento e cuidado familiar, a tendência é a ideação ceder e o paciente melhorar. Não é um caminho fácil, mas é um caminho possível e alternativo a morte.

-SOBREVIVENTES: Nós chamamos de sobreviventes aqueles que vivenciam a perda de alguém para o suicídio- família, amigos, escola, trabalho. Essas pessoas vivenciam o luto de uma forma complexa, quanto mais próximo daquele indivíduo que se suicidou mais difícil é o processo de luto, podendo levar a problemas psicológicos graves. Em geral as pessoas não buscam suporte para lidar com esse tipo de perda, o que é uma questão importante, visto que existem diversos sentimentos associados a morte daquele ente querido.

Há uma tendência das pessoas em buscar culpados, isso é bem mostrado em 13 Reasons Why quando os pais de Hannah estão tentando a todo custo entender o suicídio de Hannah, assim como Clay também procura culpados e se culpa em vários momentos. É isso mesmo que acontece, sentimentos de raiva, tristeza, em certos momentos há culpa vai para outros, ora para si mesmo. Essa confusão de sentimentos, quando não trabalhada numa sessão de terapia de apoio, por exemplo, pode evoluir para depressão e outros transtornos. Em determinado momento pode levar a uma culpabilização insuportável que culmina com uma nova tentativa de suicídio. Por esse motivo Alex tenta se matar no último capítulo. Enquanto os outros alunos estão fugindo da responsabilidade, evitando o assunto, Alex sempre assumiu que suas ações influenciaram Hannah e essa culpa vai ficando cada vez mais pesada até ser insustentável, o que o leva e tentar suicídio por uso de arma de fogo.


CONCLUSÕES

"O Brasil é o quarto país latino-americano em número de suicídio entre 2000 e 2012, segundo a Organização Mundial da Saúde, porém, o Ministério da Saúde traz que o crescimento do número de suicídios no Brasil (5,8 por 100 mil habitantes) é praticamente a metade da média mundial (11,4 por 100 mil habitantes) (WHO, 2014)."

Bom, sei que o texto ficou bem grande, mas eu queria fazer uma reflexão sobre o que achei pertinente em 13 Reasons Why, ressaltando o que é mostrado com o lado científico, para informar vocês da importância da prevenção. Não podemos nos calar frente ao suicídio, precisamos falar, precisamos abrir canais em que as pessoas que precisam de ajuda possam se agarrar nos momentos difíceis de suas vidas.

A série não romantiza ou incentiva o suicídio, no meu ponto de vista. Fica claro o sofrimento e a dor de Hannah o tempo todo e como a adolescente não consegue encontrar mecanismos para lidar com isso, além de que a falta de diálogo e sensibilidade de algumas pessoas a faz sentir cada vez mais sozinha até ela tomar sua decisão. Não foram decepções amorosas, a falta de amigos ou bullying, que levaram Hannah a cometer suicídio, mas o somatório dessas experiências traumáticas, assim como a sensação de falta de suporte emocional, aliado a uma personalidade pré-morbida (a pessoa portadora de traços melancólicos e sensibilidade excessiva terá maior probabilidade de desenvolver uma quadro depressivo mais crônico e mais atrelado à personalidade, portanto, terá uma evolução mais desfavorável).

Vejo o seriado como um alerta, do que ocorre hoje em nossa sociedade, não apenas nas escolas, mas o Brasil tem tido um aumento nas taxas de suicídio ano após ano, enquanto outros países tem conseguido reduzir esses números. É um seriado que precisa ser visto e debatido, pois como sempre digo, é imprescindível falarmos sobre suicídio, mas fora do senso comum, entendo esse fenômeno como um problema de saúde pública, não como uma fraqueza ou uma escolha pessoal.


REFERÊNCIAS: 

1-http://www.bullyingstatistics.org/content/bullying-and-suicide.html
2-https://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/bullying-suicide-translation-final-a.pdf
3-http://www.scielo.br/pdf/rprs/v32n3/1321.pdf
4-http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1647-21602016000100003
5-http://revpsi.org/wp-content/uploads/2015/12/Fukumitsu-et-al.-2015-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio.pdf
6-http://www.mastereditora.com.br/periodico/20150501_135302.pdf
7-http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=58
8-http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpsp/v31n2/v31n2a09.pdf
9-http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf
10-BOTEGA, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

FIM DO RELACIONAMENTO: E AGORA?

Relacionamento afetivo é uma busca constante de muitas pessoas, mas o medo do fim e a possibilidade de "abandono" gera inúmeros fantasmas. Vamos falar um pouco sobre o término dos relacionamentos e como as pessoas lidam com esses sentimentos.

O ser humano é essencialmente social, apenas algumas exceções bem pontuais que mostram pessoas que se isolaram completamente do mundo (muito provavelmente por alguma patologia). É pelo contato social que aprendemos a falar, nos comunicar, absorvemos as regras morais, sociais, culturais. Precisamos, em muitas ocasiões, da confirmação do outro para sabermos se estamos bem vestidos, se aquela decisão foi bem tomada, ou apenas para compartilhar uma alegria, uma tristeza. E buscamos relacionamentos afim de satisfazer uma necessidade maior, não apenas de constituir família, mas de companhia mesmo. 

Entretanto, por uma série de eventos, o relacionamento tão almejado pode chegar ao fim. Acredito que esse seja um dos grandes dilemas do homem hoje, aceitar o fim das coisas. parece que há um desejo fortíssimo para que as coisas tenham duração ilimitada. Esquecem que tudo na natureza tem um ciclo, as coisas se findam em algum momento, se renovam de alguma forma. Mas para as pessoas (ou pelo menos a maioria delas) parece inaceitável que um relacionamento acabe. Parece que todo aquele investimento afetivo foi em vão, emergem inúmeros questionamentos e um sentimento de frustração se faz presente e forte, tudo isso porque aquela pessoa não está mais com você. 

É nesse momento que muitas psicopatologias podem surgir. Aceitar o fim do namoro, noivado, casamento, união estável, é aceitar que algo deu errado, que não funcionou, que você está "sozinho" novamente e terá que passar por todo o processo de buscar alguém. Para alguns isso é inaceitável. Pode acontecer uma fixação com a pessoa que foi embora, fixação de pensar nela constantemente, de não aceitar de forma alguma que aquele relacionamento terminou e isso é perigoso, pois pode levar a uma obsessão. O sujeito não consegue mais trabalhar/ estudar direito, seus pensamentos estão sempre voltados para a pessoa, isso prejudica inclusive seu contato social com os outros. Pensar que a outra pessoa não está com você e pode estar com outro gera sentimentos violentos de raiva e frustração. Quanto chega nesse ponto, muitas vezes ocorrem os chamados crimes passionais. Por não saber lidar com o término do relacionamento, aquela pessoa acaba eliminando a fonte do seu amor que ao mesmo tempo é sua dor/sofrimento. Gostaria de ressaltar que não é o fim do relacionamento que causa esse tipo de comportamento, pois provavelmente a pessoa já tinha uma estrutura patológica. Para entender melhor, leiam meus artigos sobre ciúme patológico (clicando aqui) e codependência afetiva (clicando aqui).

MAS ENTÃO COMO AGIR DIANTE DESSE SOFRIMENTO? O QUE FAZER AO TÉRMINO DO RELACIONAMENTO?


Primeiro é importante pensar sobre isso de forma mais imparcial possível. Comece a analisar a sequencia de eventos que levou a isso. Nenhum relacionamento termina da noite para o dia, sempre há motivos e situações que impulsionam para isso. Analise qual o seu papel nessas situações, como você poderia ter feito diferente e se suas ações tiveram um peso maior ou menor. 

Aprenda a reconhecer seus erros, suas falhas, seja consciente das suas ações. As pessoas tem uma grande tendência a sempre culpar o outro por tudo, sem olhar para si mesmo e reconhecer que também tem responsabilidade pelo que ocorre numa relação. Entendendo melhor seus comportamentos durante a relação e reconhecendo onde errou você poderá evitar isso no futuro.

Não se torne um perseguidor. Isso é ruim para você (a pessoas vão saber e começar a ter medo e reprovar suas ações), e para a pessoa que vai tentar se proteger, muitas vezes acionando até a polícia. Respeite o espaço do outro. Ligações excessivas, ficar procurando a pessoa, seguindo ela, stalkeando nas redes sociais, tudo isso é sinal de patologia. Ninguém é propriedade de ninguém, ninguém é obrigado a te amar, a ficar com você. Amor é algo natural, quando é algo forçado e que impede a liberdade e o bem estar do outro aí já é doença.

Evite condutas autodestrutivas. Sei que é difícil porque somos bombardeados com esses comportamentos pela nossa cultura. Quando termina o relacionamento a pessoa vai pro bar, se enche de álcool, usa drogas, passa a dirigir perigosamente. Tudo isso é comportamento de risco e uma forma de causar dano a si mesmo. Uma hipótese minha é que isso é uma forma, inconsciente, da pessoa chamar a atenção do antigo parceiro(a), "olha como eu to mal, isso é culpa sua, por sua causa estou assim". 

Se a pessoa que se relacionava com você permitir uma aproximação e uma possível reconciliação, tudo bem, mas evite forçar isso ou você vai estar criando ainda mais conflitos. 

Busque amigos, parentes para conversar, desabafar, não sofra sozinho. Sofra, elabore o término, não finja que nada aconteceu. 



quarta-feira, 24 de maio de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #7- O QUE É PSICOTERAPIA

Olá a todos, sei que estive ausente, mas devido ao trabalho e situações pessoais nem sempre consigo manter uma frequência desses projetos. Contudo, antes tarde do que nunca! No programa de hoje eu tento explicar um pouco a complexidade do que é a Psicoterapia. Eu sei, eu sei, faltou falar sobre muita coisa, afinal é um tema grande para ser tratado em 10 minutos. Por isso podem sugerir nos comentários quais assuntos vocês gostariam que eu abordasse futuramente. Até!


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quarta-feira, 10 de maio de 2017

PLANOS DE SAUDE E PSICOLOGIA

Sempre me perguntam porque eu não atendo por planos de saúde. Hoje, vou falar um pouco sobre isso, para que vocês entendam como é o tratamento dos planos com o profissional de psicologia no Brasil.

Saúde é algo que todos precisamos, em algum momento, um direito e uma necessidade para sermos capazes de levar uma vida melhor, de modo a lidarmos com doenças e quadros que necessitem amparo especializado. Muitos pagam planos de saúde caros para ter um acesso melhor a esses serviços: medicina, nutrição, fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia, são algumas das categorias que podemos precisar em algum momento da vida. 

Entretanto há uma clara disparidade de como esses serviços de saúde são tratados pelas operadoras dos planos de saúde. Enquanto a medicina está no topo, as outras categorias são subvalorizadas e há um tratamento bem desigual. Mas não vou ficar fazendo comparações, uma vez que é bem claro o quanto outras profissões de saúde são desvalorizadas no nosso país. 

No caso da Psicologia, o que ocorre é bem simples: as operadoras de plano de saúde pagam mal os profissionais, limitam o atendimento e as intervenções e isso afeta diretamente o trabalho do Psicólogo com seu paciente, impactando de forma negativa. Explico. A grande maioria dos planos paga em média 20 a 25 reais por atendimento, então para o psicólogo que trabalha com planos esse valor só compensa com um grande volume de atendimentos. Logo, o tempo de atendimento de 50 minutos (um padrão informal de tempo de atendimento em psicologia, suficiente para ouvir a demanda do paciente e fazer as devidas intervenções) é encurtado para 30 minutos ou menos, o que para mim é insuficiente para um atendimento de qualidade. Outro ponto é que o tempo é reduzido para aumentar a quantidade de atendimentos e isso causa um desgaste no profissional que tem que trabalhar mais e se esforçar mais para obter seus ganhos. O trabalho do psicólogo não é fácil, é bem desgastante devido a ter uma atenção a tudo que o paciente fala e seu comportamento, elaborar as intervenções, ouvir muitos conteúdos negativos causa um desgaste mental e emocional. Desta forma quanto mais pessoas um psicologo atende num curto espaço de tempo, mais cansado, desatendo ou esgotado ele estará nos últimos atendimentos, comprometendo a qualidade.

Outro problema comum é a continuidade da terapia. A psicoterapia pressupõe uma continuidade para que o profissional estabeleça uma boa aliança terapêutica com o paciente e este possa se sentir confiante o suficiente para falar de seus problemas e sofrimentos. Entretanto o que acontece é que nem sempre o mesmo psicólogo do plano está disponível para aquele paciente, e ele acaba sendo encaminhado para outro profissional. Cada vez que isso acontece ele tem que repetir todo o processo e isso leva a dois problemas: alguns pacientes acabam desistindo, pela repetição de sempre recomeçar do zero, e a questão que causa sofrimento ao paciente nunca é tratada. 

Algumas pessoas com quem tive contato afirma da seguinte forma "Eu pago plano de saúde, eu tenho direito a consultas de qualidade". Não tiro a razão dessa pessoa, só que infelizmente os planos não dão esse suporte aos profissionais. Além da grande burocracia para se filiar ao plano e para receber o valor das consultas, os profissionais recebem um valor muito abaixo do justo pelo serviço prestado. Por esse motivo cada vez mais profissionais estão deixando de atender por planos de saúde. Lembrando que minha experiência em relação a isso se resume ao Ceará, não sei como isso se desenrola em outros estados.

Para finalizar, eu sempre prezo pelo bem estar dos meus pacientes, mesmo atendendo por plano de saúde nunca reduzi o tempo de atendimento para aumentar o fluxo de pacientes. Quando percebi que esse tipo de atendimento não valia a pena, nem para mim enquanto profissional, nem para os meus pacientes resolvi atender apenas pelos convênios (onde o conveniado tem um desconto no valor da terapia, não sendo necessário a burocracia dos planos de saúde) e particular.


quarta-feira, 29 de março de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #6 PERGUNTA QUE EU RESPONDO

Olá a todos que acompanham o blog, hoje temos mais um podcast com dúvidas dos leitores e ouvintes acerca de psicologia e comportamento. Para ouvir basta clicar no botão play! Você também pode entrar no link e salvar para ouvir depois.


quarta-feira, 15 de março de 2017

CURSO DE PERDAS E LUTO 2017 [ADIADO]

[ATUALIZADO- ATENÇÃO, O CURSO FOI TEMPORARIAMENTE SUSPENSO POR MOTIVO DE FORÇA MAIOR. ASSIM QUE FOR RETOMADO ESTAREI AVISANDO VOCÊS.]

Olá a todos os leitores que acompanham meu blog, tudo bem com vocês? Estarei ausente durante alguns dias das postagens (vou tentar postar alguma coisa mas não garanto), pois estarei preparando o curso de Perdas e Luto junto das minhas colegas Priscila Campos e Olívia Barros, a ser realizado aqui em Fortaleza. Estarei ministrando as aulas acerca de Prevenção de Suicídio e seus desdobramentos. Informações abaixo.


quarta-feira, 8 de março de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #5 ANSIEDADE

Olá vocês que acompanham meu blog, tudo bom? Estamos de volta depois do carnaval com mais um podcast 10 Minutos de Psicologia e o nosso tema de hoje é Ansiedade. Basta apertar o botão "play" laranja, ou baixar para seu dispositivo preferido para ouvir a qualquer hora.





quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #4 - GOSTARIA DE SABER MAIS

Olá, estamos de volta com mais uma edição do podcast 10 Minutos de Psicologia. Hoje vamos tirar as dúvidas de pacientes, leitores e curiosos. Envie suas perguntas para o e-mail: psicologia10minutos@hotmail.com



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA #3- QUERIA SABER MAIS- DIFERENÇA ENTRE PSICÓLOGO E PSIQUIATRA

Olá leitores do blog, no programa de hoje vamos falar um pouco acerca das diferenças entre psicólogo e psiquiatra.

E QUANDO A PSICOTERAPIA FALHA?

O paciente vai ao psicólogo buscando resolver seu problema, o tempo passa, nada muda. Ele gasta dinheiro, investe seu tempo e não viu mudanças. A psicoterapia falhou? O psicólogo era incompetente ou foi autosabotagem do paciente? No artigo de hoje, vamos falar sobre o que pode acontecer e de que formas a psicoterapia pode falhar.


MAS O QUE É MESMO PSICOTERAPIA?

Eu já devia ter escrito um artigo explicando a psicoterapia e seus desdobramentos a muito tempo, mas não se preocupem, em breve farei isso, aprofundando o tema. Mas agora, vou dar a vocês apenas uma definição breve e mais geral do que é a psicoterapia para que possamos entender como ela funciona.

Existem muitas definições nos livros e manuais de psicologia acerca do que é a psicoterapia, mas eu vou colocar o meu entendimento baseado na maioria delas.

Psicoterapia é um processo de intervenção psicológica onde o psicólogo, a partir do relato do paciente, busca estratégias de intervenção comportamental, identificando padrões mal adaptados de comportamento, assim como dar suporte emocional em situações de perda e sofrimento psíquico, auxiliar no tratamento de transtornos mentais e favorecer o desenvolvimento humano.

Eu diria que 95% dos pacientes que buscam um psicólogo é por conta de algum sofrimento psíquico, conflito, situação problema que atrapalha sua vida e o desenvolvimento de suas atividades cotidianas, enquanto que o restante geralmente são pessoas que buscam o autoconhecimento (muitos estudantes de psicologia e alguns curiosos). 

A psicoterapia é essa "terapia do psicológico", da mente, do comportamento, das ações, das emoções, que procura mostrar ao paciente novas formas de lidar com seus problemas. Ou seja, o psicólogo é o guia, quem percorre o caminho é o paciente. Há no senso comum a falsa ideia que o psicólogo resolve o problema das pessoas, é aí que entra a ideia fundamental desse artigo, os motivos que podem levar a psicoterapia a falhar.


COMO A PSICOTERAPIA PODE FALHAR?

"Esse psicólogo não sabe de nada"
É uma possibilidade você estar lidando com um profissional pouco qualificado, que talvez não tenha o conhecimento técnico científico específico para tratar seu problema ou que não tenha equilíbrio emocional para lidar com seu tipo de sofrimento. Explico. Embora não seja um pré-requisito, é importante todo psicólogo clínico fazer psicoterapia, para cuidar de seus medos, fantasmas, problemas pessoais, de modo a não misturar seu sofrimento com o do paciente que atende. Um exemplo disso: Se eu tenho um conflito doloroso com minha mãe e não resolvo isso em psicoterapia, quando for atender um paciente que relatar o mesmo tipo de situação eu não vou ter a objetividade necessária para ouvir e entender a situação uma vez que vou estar focado lembrando de como minha relação com a mamãe é ruim. Eu já escrevi um artigo explicando como escolher seu psicólogo, você pode ler clicando aqui.


Assim como cada médico tem sua especialidade, nenhum psicólogo é versado em tudo, o conhecimento da Psicologia é muito vasto, então em geral os psicólogos se especializam em áreas específicas. Apesar da psicoterapia ser versátil, podendo ser utilizada para intervenções em diversos contextos, a experiência em cada contexto vai ser diferente e isso conta muito para o sucesso da terapia. Como vou atuar num problema difícil no qual eu não tenho experiência nem conhecimento?


"Eu não vejo mudança, venho toda semana aqui no consultório mas nada acontece. A gente só fala das mesmas coisas"
Esse discurso é de um tipo de paciente que está preso demais a ciclos e repetições de padrões de comportamentos do qual não consegue evitar. O psicólogo identifica esses padrões, apresenta para o paciente, elabora estratégias de mudanças de acordo do a realidade do seu paciente, dá todas as explicações possíveis a ele, mas a mudança não ocorre. Os padrões não são quebrados. O clico continua. Incompetência do psicólogo? Ou seria o paciente que por algum motivo obscuro não consegue mudar ou não quer mudar?

A mudança de comportamento não é algo simples como se imagina. Não acontece apenas sendo explicado como agir, se assim fosse, ninguém precisaria de psicólogo (nem eles existiriam). Pelo contrário, a mudança é dolorosa, assustadora, demorada. Requer uma motivação interna muito forte para acontecer. E nem sempre essa motivação está presente, mesmo o paciente buscando ajuda, ele parece não ter a força de vontade necessária para mover as engrenagens da sua vida. Mudar pode ser assustador, permanecer no sofrimento que já é conhecido pode ser reconfortante.


"Eu vou para a terapia, mas o psicólogo não fala comigo direito, não confio nele para contar tudo"
A confiança, o que chamamos em psicologia de aliança terapêutica, é fundamental para a psicoterapia. Você não tomaria um remédio ou faria uma cirurgia com um médico em que não confia. Com o psicólogo não é diferente, se não há confiança e abertura do paciente para com seu terapeuta a psicoterapia fica estagnada. Além disso a falta de confiança ou uma relação de desconfiança impede que o paciente relate tudo que é essencial para que o psicólogo compreenda a situação, tornando difícil assim elaborar uma estratégia interventiva. Se você não se sente à vontade com o psicólogo que escolheu, com o método dele, mude de terapeuta. Isso nos leva ao próximo ponto...


"Já mudei de terapeuta várias vezes, nenhum consegue resolver meu problema."
Curioso não? Esse paciente teve o azar de só escolher psicólogos inaptos a ajudá-lo, quase como um imã que atrai somente a mesma coisa. Pela lógica, você acha realmente que o paciente só escolheu psicólogos incapazes? As chances são remotas. O que ocorre nesse tipo de caso é o que chamamos em psicologia de resistência, não importa o método, o psicólogo, a teoria utilizada, ele resiste. Em geral é uma atitude inconsciente, em que ele não percebe que está fazendo isso. Mas um bom terapeuta analisando um histórico assim percebe de cara o que está acontecendo, mas não é garantia que possa reverter. Vai depender a aliança terapêutica do qual falamos no paragrafo anterior. Eu já consegui lidar com esse tipo de situação com sucesso algumas vezes, acima de toda a técnica e conhecimento científico é importante que o psicólogo tenha muita humanidade e empatia para ouvir o paciente e ser capaz de ganhar sua confiança.

"Eu faço tudo que o psicólogo me orienta, não falto a terapia. Confio muito nele e sinto que ele tem me ajudado, mas tem coisas que não consigo fazer nem superar."
A psicoterapia não oferece milagres, assim como não existem medicamentos milagrosos. Existem probabilidades em maior ou menor grau de aquilo funcionar, dependendo de uma série de fatores numa equação muito complexa. Mesmo com todo empenho do psicólogo e do paciente algo pode não acontecer, ou talvez demore a acontecer ou talvez somente aconteça anos depois de encerrada a psicoterapia. O paciente deve estar aberto a ver seu progresso, suas conquistas depois que iniciou o tratamento, e não apenas focar naquilo que ainda não conseguiu mudar, pois isto cria uma sensação de fracasso e impotência. A psicoterapia em geral não tem um tempo certo para funcionar ou terminar. Eu já atendi pacientes que evoluíram espantosamente em 3 meses e outros com o mesmo tipo de problemas que demoraram 3 anos para ter mudanças mais significativas. O importante é ter paciência, não atingir todos os objetivos de uma vez só não significa falha.


"Vou desistir, isto não está me ajudando."
É um relato bem comum, geralmente com pacientes que não confiam no trabalho do psicólogo (muitas vezes pela falta de informação mesmo), que são muito ansiosos e esperam mudanças rápidas e visíveis, ou ainda pacientes com a dita resistência, extremamente elevada. Nesse caso não adianta forçar ou insistir, deixe que o paciente tenha seu tempo. A psicoterapia não funciona de forma arbitrária, impositiva, imperativa. Ela é uma parceria entre paciente e terapeuta, por isso não adianta jogar toda a responsabilidade para o psicólogo, afinal, o paciente também deve ser responsável pelo seu esforço e pela sua melhora, ou piora. 

Apresentei alguns relatos de pacientes e desenvolvi as situações a fim de ilustrar a vocês o que pode acontecer nesse processo tão singular que é a psicoterapia. Espero que tenha sido esclarecedor e que possa ajudar vocês a compreender melhor o trabalho do psicólogo.  





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

PSICONEWS- VITAMINA C NO COMBATE À DEPRESSÃO

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem estudado a relação do ácido ascórbico, vitamina C, com o modelo de depressão, há pelo menos 10 anos. 

Experimentos demonstraram que o uso da vitamina C em associação a três antidepressivos comuns no mercado potencializou o efeito dos medicamentos em camundongos com sintomas de depressão. Esses aintidepressivos são: fluoxetina, imipramina e bupropiona.


“Os antidepressivos têm muitos efeitos adversos, que são inclusive motivo de abandono do tratamento. Se conseguirmos baixar as doses ao associá-los com um agente sem efeitos colaterais, esta seria talvez uma estratégia terapêutica muito promissora no tratamento da depressão”, relata a pesquisadora Ana Lúcia Severo Rodrigues.

Os estudos provaram que, mesmo quando os antidepressivos são administrados em doses menores do que as que seriam consideradas efetivas, a associação do ácido ascórbico ajuda a reduzir os sintomas de depressão significativamente.

Os pesquisadores afirmam que apesar do progresso do estudo, ainda é preciso fazer testes em seres humanos, e há aí um longo trajeto científico e ético a ser traçado. 

O estudo é importante pois abre as portas para uma nova forma de tratamento da depressão, que afeta bilhões de pessoas no mundo hoje.


Fontes:

http://boasnoticias.pt/vitamina-c-pode-aliviar-sintomas-de-depressao/

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/09/cientistas-estudam-possivel-acao-da-vitamina-c-na-terapia-de-depressao.html

PODCAST 10 MINUTOS DE PSICOLOGIA- #2 QUERIA SABER MAIS

Olá, estamos de volta com mais um podcast 10 Minutos de Psicologia, hoje respondendo perguntas dos ouvintes e dos leitores. Enviem suas perguntas para: psicologia10minutos@hotmail.com


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

10 MINUTOS DE PSICOLOGIA! #1 VAMOS FALAR SOBRE PSICOLOGIA

Olá, hoje é o dia de começar uma nova jornada através do conhecimento. Estou lançando esse novo projeto, o podcast 10 Minutos de Psicologia, onde o objetivo é fala de forma breve de temas pertinentes não apena a Psicologia, mas ao comportamento social, dúvidas de leitores e pacientes, e muito mais! Quanto mais interação de vocês nesse projeto, mais enriquecedor para todos nós, por isso convido vocês a participarem! Vocês podem ouvir pelo site apertando o "play" laranja, ou podem baixar para ouvir em qualquer lugar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

QUAL É SEU MAIOR MEDO?

O medo é uma reação natural e evolutiva do organismo com o objetivo de protegê-lo de algo ameaçador. Entretanto, muitas vezes o ser humano acaba refém do próprio medo. Os animais sentem medo mas o processam de forma instintiva, diferente de nós que temos consciência do medo e criamos medos que não existem. E o propósito desse texto é justamente isso, falar desses medos interiores.

Segundo o dicionário:

MEDO

substantivo masculino
1.
psic estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência.
"m. ao se sentir ameaçado"
2.
temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio.
"m. de tomar injeções"


Existe um mecanismo bem conhecido nos animais: a reação de luta ou fuga. É uma herança genética que permitiu que os animais se adaptassem as situações de perigo e foi repassado até nós. Não temos hoje, nós humanos que nos preocuparmos com animais selvagens enquanto dormimos ou com movimentos suspeitos nos arbustos. A centenas de anos atrás era bem diferente. Todavia hoje nos preocupamos se nosso chefe vai nos demitir, se aquele cara estranho no ponto do ônibus vai nos assaltar, se o avião que passa por uma turbulência vai cair. Essas situações podem desencadear em nós o mesmo mecanismo de luta ou fuga, mas que com o tempo pode se transformar num problema: o transtorno de ansiedade generalizada. Para saber mais sobre ansiedade, clique aqui.

O homem, com sua capacidade mental de pensar sobre as coisas, também incorre em fantasiar demasiadamente, pensando em eventos que não aconteceram, podendo assim gerar medo e expectativas em coisas que não existem. Chamamos isto de fantasiar. 

Quando o rapaz está na festa, ele é tímido e quer iniciar uma paquera, suas mãos começam a transpirar frio, seu coração acelera, a boca fica seca, ele sente o estômago se revirar. Uma reação de ansiedade está se desenrolando em seu corpo. Mas ele não sabe disso, não sabe que o medo que ele alimentou em seus pensamentos, "o que ela vai dizer", "será que vou levar um não", "e se ela me ignorar", desencadeou uma reação ansiosa. 

Medo de falhar, é um dos mais comuns fatores que levam a uma reação ansiosa. Mais existem muitos outros medos. A mulher que mora sozinha, por exemplo, pode ter medo de ser estuprada, de invadirem a sua casa e lhe fazerem mal. Inexplicavelmente ela começa a sentir o coração acelerar, falta de ar, tremores nos membros, uma sensação de pânico. Ela sente isso em casa, no trabalho, com a família. Até ela buscar atendimento psicológico, não ficará claro para essa moça que o que ela vivencia é uma reação ansiosa a suas fantasias, pensamentos que despertam seus temores mais profundos.


A reação de ansiedade é sempre acompanhada de expectativas de coisas que não aconteceram, e anda de mãos dadas com o que chamamos em psicologia de pensamentos catastróficos, ou seja, aquilo vai dar errado, vai acontecer algo ruim, não vou conseguir, não vai dar. Esse fluxo de pensamentos negativos antecipando algo vai levar a uma reação de luta ou fuga, uma reação ansiosa, onde não há um motivo real para lutar ou fugir, mas é assim que o cérebro dela interpreta a informação. É como se a pessoa criasse uma programação equivocada no cérebro. 


Se eu ando numa rua perigosa e sei disso, posso ter medo para me proteger, mesmo que o ladrão nunca apareça eu vou estar em estado de alerta como forma de me prevenir de qualquer coisa. Mas se começo a imaginar centenas de situações ruins, estou alimentando minha mente com muita informação desnecessária de eventos improváveis, estou permitindo que essas reações desagradáveis ocorram no meu corpo. 

A melhor forma de evitar isso é conversar sobre seus medos, percebe-los e assumi-los, buscando evitar passar uma imagem de pessoa inabalável, que não tem medo de nada, que nada lhe afeta. Somos humanos e somos passíveis de sermos afetados por qualquer coisa. Ter determinado medo não é demérito ou fraqueza. Quando conhecemos melhor esse medo temos a chance de poder encará-lo e enfrentá-lo. Caso não consiga sozinho, então é hora de buscar um psicólogo para te ajudar nesse processo.


Referências:
http://www.uel.br/grupo-estudo/analisedocomportamento/pages/arquivos/ANSIEDADE_PANICO.pdf

http://clickeaprenda.uol.com.br/portal/mostrarConteudo.php?idPagina=30151





quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Entrevista Rádio Universitária UFC

Olá a todos! Mais uma vez um feliz 2017 para todos que acompanham meu blog! Começando o ano com novos projetos, primeiramente segue a entrevista que concedi a rádio universitária da UFC. Para ouvir basta clicar no botão play laranja aí embaixo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

FELIZ 2017, VEM NOVIDADE AÍ NO BLOG?

Eu gostaria de agradecer do fundo do meu coração a todos os leitores do blog, que acompanham meu trabalho e desejar que 2017 seja um ano enriquecedor e que possamos superar os desafios e as adversidades. Entretanto, gostaria de aproveitar o momento para deixar algumas considerações. Primeiro é reforçar a ideia desse espaço. Criei esse blog para falar sobre psicologia, comportamento e assuntos afins para pessoas leigas no assunto, usando uma linguagem acessível e buscando descomplicar, embora sempre amparado em dados científicos. 

Gostaria de poder manter uma frequência de postagem dos artigos, mas não só o trabalho como minhas obrigações diárias acabam se tornando um desafio para que eu mantenha uma rotina dessas postagens. Em alguns momentos eu consegui manter essa rotina, em outros não. Quando vou escrever sobre algo gosto de acrescentar informações pertinentes, então leva algum tempo para preparar o texto. Mesmo que possa demorar algum tempo, estarei sempre lançando matérias novas aqui, e sempre procurando essa periodicidade.

Estou planejando algumas coisas novas, estou com uma ideia interessante que ainda não saiu do papel pelo mesmo motivo da demora das minhas postagens: tempo. Quero criar algo para aumentar minha interatividade com vocês e estou estudando algumas possibilidades e vendo qual a melhor forma de operacionalizar. Quem sabe em 2017 essa novidade não saia do papel?

De qualquer modo, mais uma vez agradeço a visita e o apoio que vocês vem me dando ao acessar meu blog, e espero que 2017 nos traga muitas conquistas!


Até breve

Leonardo Martins